Em Subsidiário, Herbero Sales faz seu autorretrato
Alvaro Costa e Silva, Jornal do Brasil
RIO - No Brasil, a prática de escrever diários não é comum entre os escritores. Ao contrário do que ocorre na vizinha Argentina, por exemplo. Ou na França, onde o gênero viceja. Aqui contam-se nos dedos aqueles que se dedicaram e se dedicam à tarefa.
Entre os mais notáveis, Lúcio Cardoso, cujo Diário completo não é tão completo assim, pois jamais foi editado na íntegra. Mesmo assim, são páginas extraordinárias, que ombreiam com o melhor romance que escreveu, Crônica da casa assassinada. José Carlos Oliveira, com seu Diário selvagem, é tão verdadeiro que chega a machucar. O mais ferino de nossos diurnalistas para usar a expressão de Eustáquio Gomes, ele próprio um esmerado cultor do gênero chama-se Eduardo Frieiro, de leitura impagável. Na trilogia Espelho partido, Marques Rebelo transfigurou diários íntimos em romance. Os de Josué Montello, larguíssimos, leem-se pelo que têm de vida literária e algum estilo. Os de Humberto de Campos estão cheios de velhacarias e de dissabores do próprio e por isso valem a pena.
Como indica o título, Subsidiário: confissões, memórias & histórias, de Herberto Sales, é um híbrido, bem ao gosto do autor, figura à parte dentro da literatura brasileira, a qual anda esquecida. Publicado pela primeira vez em 1988, o livro com o romance Dados biográficos do finado Marcelino marca o projeto de reedição das obras do autor pela editora paulista É Realizações.
É um documento indispensável aos curiosos por conhecer Herberto Sales e sua extensa obra de romancista. Trata-se de um longo autorretrato redigido em Paris, onde o escritor ocupou o cargo de adido cultural na embaixada brasileira. Cheio de diatribes como esta: Em matéria de cinema é preciso ter bastante caráter para reconhecer que Fred Astaire sempre foi um canastrão. A constatação é simples. Basta rever qualquer um de seus velhos sucessos dançantes e sapateantes para verificar que ele nunca dançou nem sapateou sem olhar todo o tempo para os pés .
De especial interesse são as páginas dedicadas ao convívio com Marques Rebelo, que exerceu tanta influência sobre Herberto Sales, que o trouxe da Bahia para o Rio e ainda copidescou seu primeiro romance, Cascalho, mais tarde inteiramente reescrito longe das vistas do tutor. Está tudo contado no livro em detalhes.
Os tempos em que o escritor trabalhou na revista O Cruzeiro também merecem destaque. Ele assim via Péricles, o genial criador do Amigo da Onça: (...) não falava. Ficava horas e horas mergulhado no mais absoluto silêncio, embora o seu coração falasse o tempo todo com ele, entranhado diálogo de obscura monologação. Para falar, Péricles tinha de beber .
Talvez o episódio mais revelador seja a reconstituição do discurso que o autor, um tiquinho bebido, fez em um jantar em sua homenagem quando da segunda edição revista de Cascalho: Se eu soubesse previamente que ia haver discurso, não teria comparecido ao jantar; que discurso era uma coisa muito chata, e que eu não agradecia os que ali acabava de ouvir; que tudo aquilo estava acontecendo por causa dos meus óculos, e expliquei: eu queria ser motorista de caminhão para carregar madeira nas matas de Andaraí, mas um dia descobri que era míope, um médico oculista me plantou uma cangalha na cara, e evidentemente eu não podia ser motorista de caminhão usando óculos: óculos eram coisa de doutor, coisa de intelectual; de óculos eu tinha mesmo de abandonar a ideia do caminhão e arranjar outra coisa para fazer; a outra coisa fora virar escritor .
