Em O Mundo, Juan José Millás adota o recurso do romance autobiográfico
Wilson Alves-Bezerra, Jornal do Brasil
RIO - Há uma cena em O mundo, do espanhol Juan José Millás, em que, após uma crise de pânico, o narrador-escritor foge de uma festa na casa de seu editor e se abriga num táxi, onde, ainda sob efeito de haxixe, álcool e ansiolíticos, faz o taxista rabugento chorar, ao dizer que Deus não está contra ele, que a loucura do jovem filho do motorista não aconteceu para amargurar a existência dele e da mulher .
Diante de tal cena, certamente os leitores mais suscetíveis se emocionarão e acreditarão estar diante de um escritor sensível, conhecedor da alma humana; outros abandonarão o livro, ao considerar a narrativa piegas; alguns não entenderão a lógica daquele memorialista que a todo momento se lembra da mãe morta e de sua doce psicanalista a evocar Deus num táxi sujo.
O narrador de Millás permite este leque de possibilidades. O personagem-narrador, ao denominar-se também como Juan José Millás, escritor, e fazer referências a cada um de seus livros, parece adotar o recurso do romance autobiográfico, sem abrir mão do tom jornalístico muitas vezes. A narrativa, como se pode imaginar, oscila. A nos pautarmos pela quantidade de prêmios que o escritor recebeu incluindo o Prêmio Planeta de 2007, conferido a ,O mundo pode-se entender que a literatura de Millás é aquela que a indústria editorial contemporânea classifica como de qualidade.
A facilidade do livro de Millás, ademais do estilo límpido do autor, está no seu gênero híbrido. O romance de tintas autobiográficas mescla episódios da infância e juventude com outros da carreira do escritor, num procedimento semelhante ao de Paulo Coelho, em alguns de seus livros, de ser, a um só tempo, escritor, narrador e personagem. Alguns leitores poderão sentir falta do anteparo da construção literária, tanto em momentos demasiado confessionais como o Epílogo quanto em trechos claramente informativos: Está minuciosamente descrito em meu romance Letra muerta .
Em Millás, cruzam-se lembranças do pai médico; da mãe onipotente recentemente falecida; da musa da infância, Luz; do amigo cardíaco, Vitaminas; e de sua irmã magricela e feiosa, María José. Mas, já no capítulo inicial, o que poderia ser a narrativa cândida dos primeiros anos de vida, resolve-se numa sorte de estilo médio, que não cede totalmente nem às fantasias infantis nem à visão do narrador envelhecido. Tal procedimento mostra seus efeitos na cena em que, sozinho em sua primeira e furtiva viagem de bonde, o menino Juan José encanta-se ao acreditar ver numa esquina uma senhora que ele sabia morta. Uma explicação precipitada do narrador adulto impede que se sustente nas páginas seguintes o encanto das incursões do garoto pelo que ele crê ser o Bairro dos Mortos. A explicação da fantasia, como se sabe, corresponde a sua anulação.
O outro traço presente ao longo de quase todo o livro é a interpolação de fragmentos das sessões de análise do narrador. O mistério do vivido e do recordado cede às tentativas (muitas vezes vãs) de aceder ao sentido, à supostas explicações que ele teria conseguido em sua análise pessoal. Fica a impressão de que, à maneira dos manuais de autoajuda, mais que literatura, o que se apressa em buscar pela escrita é uma cura. Assim, Millás termina por acrescentar uma nova dimensão às relações entre psicanálise e literatura: trata-se do narrador que conta, ao lado de suas memórias, as suas sessões de análise, e suas conclusões parciais. O leitor ressente-se do preenchimento dos interstícios da experiência com um sentido exógeno.
É no terceiro capítulo Você não é interessante para mim que tais interpolações se suspendem. E é quando Millás acerta a mão. Trata-se do relato da obsessão amorosa do narrador pela irmã do amigo morto: María José. Tal capítulo relata uma sucessão de desencontros entre o narrador e a amada que o despreza, na escola, quando ela é carola e magricela; depois na faculdade, já no final dos anos 60, mocinha e comunista; e, finalmente, no início dos 80, quando ele, já escritor, encontra-a numa conferência em uma universidade americana, professora e crítica literária (marxista). O rechaço de María José a Juan José se repete em cada uma das cenas, num crescendo. O ápice é o encontro final, quando o jovem escritor tem que se enfrentar com as críticas à sua obra, daquela que o considera o autor de dois romances pequeno-burgueses, pouco ambiciosos formalmente etc , além de um romancista equivocado, um cara que acertava nas questões periféricas, mas que não chegava à medula .
Mecanismo autoirônico
Tal incorporação das críticas ao autor termina por constituir um mecanismo autoirônico, ao trazer para o livro, comentários que poderiam ter sido direcionados inclusive a este O mundo. Tais críticas, mesmo que domesticadas, por virem da boca de uma radical, não deixam de ser interessantes, pois finalmente abre-se o espaço para o confronto, a contradição, e o questionamento da escrita de Millás. Quando o narrador-escritor perde-se entre defender sua obra ou investir amorosamente em direção à garota sempre desejada, é o peso da literatura que entra em questão. Entretanto, tal como na cena do táxi, o encontro entre Juan José e María José se resolve em lágrimas.
O tom confessional que o livro readquire daí por diante, e os entusiasmados relatos do narrador de seu encontro com a leitura através dos romances americanos traduzidos e condensados nas Seleções de Reader´s Digest, nos fornecem uma das chaves para aceder à produção de Millás: um autor que busca no patetismo a sedução de seus leitores.
