O poeta Antônio Moura discute a ausência em novo livro
Leonardo Gandolfi, Jornal do Brasil
RIO - O novo livro de Antônio Moura mostra que bons livros de poesia não precisam ultrapassar os limites do gênero, como sugerem alguns autores, nem se apegar resignadamente a formas classicizantes, como insistem outros. Porque poemas não precisam falar de poemas, muito menos abrir novas portas formais nem, por outro lado, reabrir mausoléus. A sombra da ausência dá continuidade ainda que em outro tom aos versos muito bem conseguidos de Rio silêncio, livro anterior de Moura, publicado cinco anos atrás. Em comum entre os dois, o trabalho corrosivo do tempo em nós e nas pessoas das quais gostamos. Se bem que no livro mais novo essa consciência tenha se tornado mais aguda: De um lado a outro do desamparo humano, estendo/ para ti minhas mãos .
Há pesquisa formal nos poemas sem haver, no entanto, a obrigação do choque e da ininteligibilidade: Vai à frente, singrando, quilha de pluma e pedra pontiaguda . Da mesma forma, há também a deriva meditativa do sujeito, mas que curiosamente é menos lenta que veloz, devido, entre outras coisas, ao corte de verso: Vês? A vida é só um dia . Há nisso uma beleza luminosa e próxima de nós, vinda, sobretudo, da lembrança do pai morto ou da sombra dele, como parece sugerir o título do livro. Aliás, cai bem o verso de Drummond escolhido para uma das epígrafes: A chuva pingando desenterrou meu pai .
Sobre o pai
O livro está dividido em três partes e tem uma espécie de epílogo. A primeira delas abre com o poema sobre o pai, talvez o mais belo do livro. Este texto é tão forte que contamina toda a seção. Aqui, a morte escrita parece alcançar o limite entre o melancólico e o luminoso: O céu se ensombra, o azul fica./ Em alguma dobra das pálpebras / da íris, dos cílios, sua luz habita . Os outros poemas carregam esse peso de coisa ausente, que a morte instaura, e não será difícil encontrar palavras e expressões gastas como silêncio , pegadas na areia , canto da sereia , pássaro para representar essa ausência. Mas, devido à simplicidade da voz no texto, soam quase sempre naturais e distantes de clichês.
Ao longo do livro, os poemas revelam-se em um lugar tenso entre dois polos que, se antes eram vida e morte, passam a ser também homem e monstro ou, reveladoramente, rosto e máscara: Se o monstro tem uma cara, como/ toda cara tem uma máscara, que/ depois de certo tempo não se sabe/ o que é cara, o que é máscara . E a ideia com que se fica é que a morte no poema não significa lamúria, mas estratégia para dar vida a uma forma tensa de lirismo que com ou sem melancolia cria um eu-lírico no limite mínimo e instável entre sua força e seu fim iminente. Daí a identificação entre morte e máscara que, mais do que pagar tributo a um tema romântico ( Morrer de amor ), dá mobilidade a esse tema, ao relacioná-lo ao tópico moderno da alteridade ( Eu é um outro ).
Depois dessa metamorfose, há uma segunda seção chamada Poemas de Paris , que é encenação do deslocamento formal do sujeito visto na primeira parte. A tumba de Baudelaire, a casa de Victor Hugo, um trem cheio de turistas e uma criança, filha de refugiados, são flagrados nestes textos de viagem. A terceira seção chama-se Monumento a Pascal e justifica o que disse um dia Benedito Nunes sobre os versos de Antônio Moura: Poesia e filosofia dialogam estreitamente, mas em surdina, falando por imagens extremadas, isto é, imagens que são limiares de uma tópica do pensamento . Aqui os poemas apresentam, digamos, uma dicção mais categórica, o corte de verso ganha regularidade e o tom passa a ser o do aforismo: O rei está rodeado de gente/ que não pensa senão em divertir o rei/ e impedi-lo de pensar em si mesmo . O que no livro já foi morte e se transformou em máscara, agora, caminha no sentido da ausência propriamente dita. O eu-lírico é literalmente sugado pela natureza, que também desaparece diante do universo, que por sua vez está ligado a deus, mas um deus matemático cujo cálculo infinitesimal Blaise Pascal tentou calcular. O resultado dessa ausência nos poemas é mais concreto do que nós, leitores, poderíamos supor: Dirigimos o olhar para o céu,/ mas firmamo-nos na areia .
Antônio Moura nasceu e vive em Belém do Pará. E é sempre bom saber que se produz boa poesia fora das imediações do eixo Rio-São Paulo. E melhor ainda é saber que já não é tempo mais de a qualidade desses textos estar ligada a neoregionalismos, como ainda acontece, por exemplo, com o Mato-Grosso de Manoel de Barros. Isso não quer dizer, em absoluto, que a poesia de Moura possa ser indiferentemente a poesia de um autor catalão, carioca ou costa-riquenho. Ao contrário, ela só é possível porque foi escrita em Belém ou fora de lá, com tudo que isso signifique. No entanto, está longe de fazer dessa condição uma tônica. O texto de Moura é extremamente pessoal. Por isso, falar de regionalismos ou mesmo de universalismos parece ser já uma questão ausente, porque o que mais interessa vem dessa pessoalidade, de sua transfiguradora aproximação do fim: O que às vezes te faz cegar, antônio,/ é apenas a sutil aparência do tempo .
