O trem desgovernado do rock: show impecável do AC/DC em São Paulo
Carlos Eduardo Oliveira, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Não há nada mais icônico sobre o som do AC/DC do que a enorme locomotiva plantada no centro do gigantesco palco da turnê Black ice. O que as 65 mil pessoas que lotaram o estádio do Morumbi testemunharam na noite da última sexta-feira foi um impiedoso descarrilamento sonoro de deixar o mais calejado roqueiro desconcertado. Após um hiato de oito anos da última passagem pelo país (a primeira visita foi no lendário Rock in Rio, em 1985), a banda australiana capitaneada pelos irmãos Angus e Malcom Young deu uma aula de como se faz rock pesado de verdade e sem afetações. Com 36 anos de carreira e cerca de 70 milhões de discos vendidos, o grupo é uma espécie de unanimidade e bastião de integridade roqueira.
O frisson em torno do estádio ao longo do dia antevia não se tratar de uma noite qualquer. Filas enormes, caravanas das mais distantes regiões e trânsito complicado davam o tom da grandiosidade da festa. Com ingressos esgotados há meses, cambistas agiam livremente houve inclusive derrame de ingressos falsos. Nem a impiedosa chuva horas antes do espetáculo esfriava os ânimos. Metaleiros, posers, punks, glam rockers poucos grupos congregam tamanha Babel roqueira como o AC/DC.
Eram 20h30 quando o cantor Nasi e sua banda esquentaram a plateia. Com o apoio do guitarrista Andreas Kisser, do Sepultura) o ex-vocalista do Ira! foi bem recebido e apresentou uma seleção de covers que amalgamou de Raul Seixas a The Clash. Nesta altura a chuva parou, e a temperatura foi ao pico quando as luzes novamente se apagaram e o telão de altíssima definição exibiu um divertido filme-vinheta: garotas sensuais tentam tomar a locomotiva pilotada pelo guitarrista Angus Young. Na sequência, soam os primeiros acordes de Rock'n'roll train, faixa de abertura do mediano álbum Black ice, lançado no primeiro semestre. A multidão vai à loucura. Na pista e nas arquibancadas, milhares de luzes vermelhas piscam num efeito espontâneo, vindo das tiaras imitando chifres do coisa-ruim que fizeram a festa dos ambulantes ao redor do estádio. Para se ter uma idéia da superprodução em cena, foram necessárias 55 carretas para transportar toda a tonelagem de som e luz algo jamais visto no país, maior até do que a parafernália que Madonna apresentou por aqui no ano passado.
Mais do que tudo, é a improvável locomotiva (de verdade) atrás dos músicos que impressiona. O som, perfeito, é garantido pelas torres distribuídas ao longo da pista, evitando que setores longe do palco recebam o som distorcido, algo comum em shows de estádios. Hell ain't a bad place to be, e o megahit dos anos 80 Back in black instalam de vez a catarse na plateia.
O cantor Brian Johnson tem 62 anos, e Angus Young, o cartão de visitas do grupo, 54. Mas em cena, parecem viver numa Terra do Nunca roqueira onde o tempo parou. Embora mais continda, a perfomance do guitarrista ainda impressiona pela vitalidade o homem não para um segundo. E Johnson, no tradicional estilo caminhoneiro beberrão, desafia a certidão de nascimento com movimentação constante e o gutural vozeirão rouco curtido a bourbon. Com sua pegada seca, quase monorítmica, o baterista Phill Rudd segura o ritmo na cozinha. A seu lado, Malcom Young, na guitarra base, e o baixista Cliff Willians só vão à frente do palco para eventuais vocais de apoio.
Desculpem por não falarmos brasileiro , mas falamos rock'n'roll derrapa o vocalista.
Tudo é idêntico como o grupo sempre fez. Em The Jack, Angus faz o conhecida strip-tease de araque; já em Hell's bells, um enorme sino desce do alto no centro do palco. Johnson corre pela passarela, balança-se nele e soam os acordes de um dos mais conhecidos sucessos da banda. Em TNT, a locomotiva emite labaredas pelas janelas, e em Whole lotta Rosie, uma monumental boneca inflável senta-se sobre a máquina algo entre Cecil B. de Mille, D. W. Griffith e Steven Spilberg. Shoot to thrill, Highway to hell, You shook me all night long o massacre sonoro dura 2h15 e termina no bis ao som de Let there be rock e o For those about to rock, com 16 canhões em cena disparando alternadamente.
* De São Paulo, especial para
o Jornal do Brasil
