Jornal do Brasil

Sábado, 22 de Julho de 2017

Cultura

Romance entre versos e melodias

Jornal do Brasil

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Das mãos inquietas de Paulo César Pinheiro, 60, e Nei Lopes, 67, escorrem por mais de três décadas as cores, notas e letras de emblemáticas pérolas do cancioneiro popular brasileiro. Letristas e melodistas de verve popular, mas de profundo conhecimento da língua portuguesa, ambos talham versos como ourives em poesia e música. A partir de suas centenas de criações, exaltam e revelam um intenso fascínio pelas manifestações históricas e sociais que emolduram a formação da cultura afro-brasileira. Prezados pela riqueza de seus traços, esperaram bater a casa dos 60 para um embarque aparentemente sem retorno ao universo ficcional. Leitores vorazes e apaixonados, acalentam há muito o desejo de fincar nas páginas da literatura nacional seus romances de estreia. Em tempo, põem à baila simultaneamente suas obras iniciáticas: P. C. Pinheiro aporta com Pontal do pilar (Leya), enquanto Lopes navega pela história em Mandingas da mulata velha na cidade nova (Língua Geral). Em tramas concisas, que externam um ritmo e uma fluidez essencialmente musicais, estes dois ases da composição encontram-se, à convite do Jornal do Brasil, para um bate-papo na sede da associação de direitos autorais que coordenam, a Amar. De livros trocados em mãos, tentam entender os caminhos que os levaram a mergulhar no ilimitado universo romanesco.

Como lidam com a escrita? Usam o computador, escrevem à mão ou à máquina?

Nei Lopes:Escrevo à mão, com caneta e papel, mas sempre rascunho em blocos. Sou do tempo da máquina, tinha que cortar o papel com tesoura e gilete para depois colar. O computador tem o barato de fazer a edição na tela, mas acabou com o artesanato. Olha, na minha idade é difícil alguém se livrar disso. Existe um prazer no contato.

Paulo César Pinheiro: Escrevo à mão. Nunca usei o computador. Nunca cheguei perto disso. Não mexo com esse tipo de ferramenta... Eu até me afasto. Na hora de passar a limpo, debruço sobre a minha velha Hamilton e, aí sim, começa o processo de incluir e alterar elementos, enxugar o texto.

Como funciona o ritual, o momento em que a inspiração e o transe da criação os toma?

N.L. Comecei a escrever ensaios em 1981. A ficção veio bem depois. O ensaio é uma prática de estudo e disciplina. E no caso do romance, a minha inspiração surge em função das coisas que leio e estudo. Acumulei tanto conhecimento e verdades que chegou a hora de sacanear e brincar com todas essas certezas. Acho que mereço curtir um pouco, pô. A realidade é muito chata.

P.C.P. A máquina de escrever bloqueia a inspiração. Fico preocupado em bater e não deixo fluir. O lápis e o papel na minha frente têm uma magia diferente. Ali tudo escorre. Sempre foi assim, tanto na literatura como na música.

Há alguma explicação para esse ingresso tardio no universo dos romances?

N.L. Desde muito cedo alimentei a vontade de escrever um romance, mas não tinha pique. Entrei para esse negócio de poesia porque eu achei que era mais fácil. Sem sacanagem... Mas minha mulher me dizia que só iria ficar feliz se eu escrevesse um romance. Botou essa pilha há 28 anos. Comecei na poesia e não fui bom poeta. Talvez por isso, tenha descambado para as letras de música. Tem gente que acha conto mais difícil, mas eu lancei meus contos antes do romance. Vejo uma garotada que estreia bem pra cacete no romance. Cada um é cada um... No meu caso, acho que é uma espécie de coroamento de todo esse processo.

P.C.P. Sempre fui um leitor voraz, desde a minha adolescência tive o desejo de fazer um romance. Esmiucei todos os grandes autores deste país, Jorge Amado, Adonias Filho, Guimarães Rosa... Conheci o Brasil antes de viajar, através da literatura. Então era uma vontade adormecida. Eu tentava e não conseguia terminar sequer um conto. Duas ou três páginas eram um sacrifício... Ficava aflito e decidi largar. Acreditei que não tinha talento, que meu negócio era música e poesia. Decidi que era um bom leitor.

Qual é o maior desafio de conduzir uma ficção?

N.L. É manter a coerência. Foi por isso que eu me ferrei na primeira tentativa. Do nada, o cara que havia morrido retornava... Fiz uma tremenda cagada. Já vi escritor bam-bam-bam falar sobre isso. É preciso ter um roteiro, um argumento. Agora eu peguei a manha, mas o problema é que não sei se vou ter muito mais tempo...

P.C.P. Teve um momento, chegando ao fim do livro, que eu comecei a voltar atrás para ver se estava tudo certo. É uma ficção, tudo inventado, então chega uma hora que você pode se perder. Fiquei impressionado porque estava tudo certinho. Alguns leitores tiveram que retornar ao princípio para entender um ou outro personagem. Eu não voltei e não sei como não me enrolei. É muito estranho e misterioso. Não sei explicar até agora o que aconteceu.

Você escreve na orelha do livro que psicografou a história...

Aconteceu algo misterioso, como muitas outras situações místicas pelas quais já passei. No ano passado, em pleno Carnaval, acordei às três da manhã completamente tonto. Saí da cama, fui ao escritório, peguei um caderno e comecei a escrever direto. Saíram duas páginas de um estado completamente adormecido e aéreo. Fechei o caderno e voltei a dormir. No dia seguinte, fui checar aquilo e notei que havia escrito o primeiro capítulo de um romance, com a trama já desenhada e quatro personagens. Fiquei assombrado. A partir dali trabalhei noite e dia. Parava apenas para comer. Terminei em 10 dias. Por isso digo que psicografei este romance.

E qual foi reagiu após colocar o ponto final?

Ao fim, passei uns 15 dias meio abobalhado, não conseguia fazer nada, nem pensar... Estava completamente vazio. Tive uma sensação estranha, saudade das pessoas e dos lugares que criei. Foram 60 personagens que se apresentavam por inteiro conforme entravam na história. Nome, roupas, feições... Se eu fosse um desenhista conseguiria ilustrar as mínimas características de cada um deles. Senti muita falta, como se eu tivesse estado nesse lugar, conhecido aquelas pessoas e ido embora sabendo que nunca mais iria retornar.

Já há planos para o próximo?

Quinze dias depois, iniciei outro livro no mesmo processo. Terminei em menos de dois meses. E logo depois comecei e completei um terceiro.

Todos os três em ambientes, lugares, linguagens e sotaques completamente diferentes. Em seis meses, escrevi três romances. Daí começou a pintar o quarto, mas eu estava exausto, as músicas dos meus parceiros estavam se acumulando e pedi um tempo, porque sei que quando vier a hora, a história vai me tomar e eu não vou querer saber de outra coisa. Enquanto ela ainda está rodando na minha cabeça, comecei a escrever um quinto livro, que remonta as histórias e bastidores das minhas canções.

Nei, seu romance trata de personagens célebres e localidades cruciais para a formação da nossa história cultural. Fala-se da Pedra do Sal, Cidade Nova, dos ranchos carnavalescos, das festas da Penha, das tias que comandavam o samba e a comida... O que o leitor apreende de todo esse universo?

Trata-se de uma investigação sobre a vida de um personagem polêmico. Se passa entre Rio e Bahia, entre os anos de 1870 e 1930. Uma ficção que não leva a muitas conclusões. O leitor tangencia a origem de todas as manifestações fundamentais para a consolidação da cultura afro-brasileira. A origem do samba e a importância desses baianos que vieram ao Rio para a consolidação do candomblé.

Paulo, de que maneira está ambientado o Pontal do Pilar?

Criei um vilarejo à beira-mar com um cais do porto para navios cargueiros. Um lugar que abriga um bom número de estrangeiros, em sua maioria europeus, que se encantam e decidem ficar, alucinados pelas riquezas e pela mistura de um povo constituído por negros e índios. Traço um triângulo amoroso em que todos os habitantes do lugar interferem na vida desses personagens centrais. Há tragédia, humor, drama, poesia e música misturados de forma intuitiva, que é o mistério da criação artística.

Nei, que espécie de fascínio esse tempo histórico lhe desperta?

O universo cultural do eixo Rio-Bahia é algo que desde muito cedo me interessou, despertou minha curiosidade. Não vivi o tempo em que passa a minha história, então tive que recorrer à leitura.

E quando é que decidiu criar uma trama envolvendo um jornalista que investiga a morte da mais folclórica tia baiana daquela época?

Muito já se escreveu sobre a Tia Ciata. É uma figura muito controversa e polêmica. João do Rio dizia que era uma macumbeira de araque, uma charlatã, enquanto outros diziam que era a maior líder espiritual daquele tempo. Qual será a verdade? Não sei. Comecei a me embrenhar e pesquisar sobre a influência muçulmana entre os negros. Li que ninguém nunca viu uma fotografia da Tia Ciata, ao mesmo tempo em que uma lenda dava conta de que Debret havia pintado uma tela a partir dela... Mas Debret morreu antes de ela sonhar em existir. Dizem que ela teria curado um ferimento na perna de Venceslau Brás... Enfim, um monte de histórias malucas. É é aí que eu lanço o pioneiro do jornalismo investigativo carioca, o Costinha, justamente para pesquisar e colocar mais lenha na fogueira, já que trata-se de uma ficção.

O livro fala da grande repercussão que a morte de Tia Amina causa em toda a cidade e nos meios de comunicação. Até que ponto este romance é um canal para expressar sua inquietação ante ao pouco reconhecimento do povo brasileiro ou da mídia a personagens da nossa cultura popular?

É exatamente isso. Eu era muito pequeno em 1948 e tenho uma lembrança difusa do que houve quando Paulo da Portela morreu. Nasci no Irajá e minha casa era próxima ao cemitério. Lembro de um grande burburinho, que só observei novamente com a morte do Natal da Portela e, depois, com a Clara Nunes. Fora isso, não conheço comoção semelhante na cultura da música popular. E aí decidi criar em torno da Tia Amina toda essa repercussão... É a minha vontade de exigir e reconhecer a importância desses grandes personagens. Figuras que sempre habitaram minha fantasia e imaginário.

Já há um novo trabalho a seguir?

Tenho um romance já programado e um terceiro, que foi o primeiro que iniciei. Um deles parte da junção de dois estados-nações africanos da Idade Média. É uma rapsódia, segundo a definição de Mário de Andrade, e tem a ver com Macunaíma. É sobre um país que teria nascido após a Inconfidência Mineira e inventado por um negro. É um território fictício que se assemelha à Ilha de Marajó. Criei um hino, uma bandeira... Tem tragédia, brincadeira, ironia... Elementos sempre presentes nas minhas obras. Já o tal primeiro estava muito confuso, cheio de anacronismos... Pedi para que um amigo o lesse. Ele apontou algumas dissonâncias, eu refiz e dei um fecho interessante. Começa na atualidade e remonta o que aconteceu nas Américas a partir do século 18. Conta a história de uma família multiétnica composta por um marido negro, sua mulher branca e três filhos. Nos meus livros, eu nunca deixo de lado a parte histórica, são muitos anos de leitura e estou colocando tudo para para fora numa catarse como a do Paulinho.

Paulo, aproveitando esse viés, o que tem de ficção e o que tem de realidade e experiência própria nestas obras?

Não sei... Acúmulos de vivências e dos lugares por onde passei e me criei. Minha adolescência foi em Angra dos Reis, uma cidade de porto, localizada entre o mar e a montanha. Minha avó era uma índia guarani pura, de uma tribo que ficava no meio da floresta. Já meu avô era mistura de índio com inglês. Então carrego isso tudo no meu sangue, essa mistura de raças que trouxe para minha história. Ali há filhos de holandeses com negros, franceses com índios. Estava tudo dentro de mim.

A linguagem deste romance se deixa levar por um ritmo poético e musical. Você troca a ordem natural das frases, há rimas no meio da história, às vezes elimina um artigo ou outro... Até que ponto consegue observar a junção dessas duas formas elementares do seu trabalho, a música, na fluidez melódica; e a poesia, no sentido da continuidade das rimas?

Está tudo junto. Comecei a escrever poesia e melodias aos 13 anos. Passei a vida inteira assim. Por isso, tem música nesta história e em qualquer coisa que eu escreva. Os personagens de todos esses livros são músicos, violeiros e cantadores. No livro, eu escrevo os versos que eles compõem e entoam. A prática da poesia ao longo do tempo nos ensina a arte da concisão. Os teóricos escrevem tratados de mais de mil páginas sobre um tema. Aí o poeta vai lá e numa quadra resume aquilo melhor que aquele calhamaço. O meu livro tem isso. É sucinto. Poderia desdobrar cada capítulo, mas o poder da concisão que adquiri com a música e com a poesia foi transferido para a literatura. O que muda é a linguagem do romance, nele eu faço uma mescla da verve popular de compositor e a erudição da língua, dado meu conhecimento do português.

Estamos na sede de uma associação de direitos autorais. Como comparam os problemas relacionados a essa área na literatura e na música?

N.L.Temos menos controle em relação à música, até porque ela sempre rendeu mais dinheiro. Continua difícil, mas não posso fazer outra coisa da vida. Não poderia ser vendedor de coco.

P.C.P.Nós não escolhemos viver de música e escrita. Fomos escolhidos. E vivo bem do volume de toda minha obra, que continua a ser gravada e regravada. Eu e Nei somos os maiores representantes da cultura afro-brasileira. E até hoje levamos nossa arte ao mundo todo.

Compartilhe: