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Delícia de Romance:casal comanda restaurante surpreendente em Friburgo

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Stephani Dantas, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O processo de comer bem é comparável a fazer amor com estilo. A pressa no amor deixa irritação na alma e a pressa na refeição altera os humores fundamentais da digestão . É com essa citação do livro Contos, receitas e outros afrodisíacos, de Isabel Allende, que o casal Carla Carvalho e Victor Rodrigues finaliza o cardápio do restaurante Crescente Gastronomia, o melhor de Friburgo, comandado pelos dois ela na cozinha e ele no salão, ambos oferecendo pratos e atendimento impecáveis aos clientes.

A história, que envolve gastronomia e romance, começou há mais de 20 anos, quando Carla foi contratada para trabalhar no restaurante do qual Victor era sócio em Niterói. Conheceram-se, namoraram, casaram e resolveram comprar um sítio em Nova Friburgo, onde criavam trutas. O terreno, entretanto, era de difícil acesso e acabou sendo vendido para o ator Marcio Garcia que resolveu o problema construindo um heliporto. Depois disso, digamos que eles nunca mais desceram a serra completamente embora já tenham recebido vários convites para abrir restaurantes no Rio.

Era preciso muita coragem para abrir um restaurante na cidade naquela época (1990) não havia muitos e os friburguenses ainda não tinham o hábito de comer fora mas a ideia os fascinava e eles arriscaram o que foi ótimo para todos nós. Assim nascia o Crescente, que funcionou como um pequeno bistrô na praça Suspiro, ao lado do famoso teleférico, por 14 anos. Há cinco, se mudaram para uma casa ali pertinho, na rua lateral. O objetivo não era aumentar o número de clientes, já que a antiga casa tinha 36 lugares e a nova, 44, mas sim dar mais conforto e privacidade, fazendo-os se sentir em casa e dá mesmo para se sentir assim. Na entrada, uma lojinha com artigos de cerâmica e decoração. Na sala, dividida em dois, cinco mesas ao todo.

A parte preferida dos clientes, entretanto, é a varanda, com quatro mesas (se você tremeu só de pensar no frio, relaxe, dois potentes aquecedores de pé mantém a temperatura agradável do lado de fora à noite), uma jabuticabeira, um limoeiro e uma árvore de amêndoas portuguesas, cujos frutos viram sucos e geleias. No fundo do terreno, uma horta com temperos.

A estrela da casa, entretanto, é a cozinha, toda envidraçada. O recurso permite que a gente, do salão, tenha vista privilegiada do trabalho de Carla entre as caçarolas. É de lá que saem obras-primas como o ravióli montanhês recheado com 50% de queijo de cabra e 50% lactose de vaca, para o sabor ficar mais suave e não competir com a massa e o magret de canard au pistache brulée pato acompanhado de batata laminada e aspargo verde, simplesmente divino. Foi com sua cozinha artesanal que Carla conquistou críticos e clientes exigentes, que ficam surpresos com a qualidade da comida feita ali. Tudo que ela sabe foi conquistado com muita pesquisa e alguns cursos, mas principalmente por sua vontade de servir (muito) bem. Acredito que o mais marcante na minha comida seja o uso de técnicas francesas com ingredientes locais, frescos e saborosos , diz ela, muito modesta diante dos elogios rasgados de quem experimentava seus pratos pela primeira vez.

Adega de primeiríssima

De volta ao salão, Victor é um gentleman. Atende os clientes de maneira personalizada e está sempre disposto a dar sugestões de vinhos para acompanhar as iguarias que sua esposa faz na cozinha. A adega climatizada, localizada na antiga garagem da casa, tem mil garrafas e 195 rótulos. O consultor de Victor é seu filho, Ruan, que é enólogo. Há pérolas como o Cavas Submarinas, um vinho chileno 85% pinot noir e 15% carménere, que repousa abaixo da superfície marítima e cujo símbolo não poderia ser mais apropriado: uma sereia.

Para ele, nada é um problema, cliente pode tudo, sempre tem razão. O cuidado e a informalidade do atendimento e da comida fazem com que o funcionamento da casa não seja o mesmo sem eles quer dizer, eles nunca testaram, mas preferem não mexer em cozinha que está ganhando. Por isso, toda segunda semana de março e agosto, o restaurante fecha por 15 dias, e todos os funcionários têm férias coletivas uma maneira de agradar a todos, que não precisam cobrir horários um do outro. Os clientes já conhecem o hábito e apóiam, embora alguns torçam o nariz, por não quererem ficar tanto tempo longe da melhor comida da região. Mas é só uma questão de paciência. Logo, logo, eles voltam trazendo novidades dos lugares que visitam, como França, Itália, Argentina, Chile e Estados Unidos.

Embora só uma visita ao restaurante já valha uma subida à serra, não custa nada usá-lo como desculpa para dormir por lá e curtir o dia seguinte. Uma ótima opção de hospedagem na região é o Parador Lumiar, que fica a quase uma hora do centro de Friburgo, mas vale a pena. Até porque você não precisa sair de lá para nada. São 13 chalés, todos com a mesma metragem, mas alguns têm extras, como ofurô. A área de lazer inclui piscina, sauna, sala de ginástica, restaurante e até cachoeira privativa.

A sugestão é se esbaldar nas dependências do hotel até a noite, jantar por lá e descansar, para aproveitar melhor o dia seguinte. Então, acordar cedo, tomar o supercafé da manhã na varanda do restaurante (com trilha sonora específica para cada refeição) e partir para um passeio a cavalo seguido de um tour de jipe pela região incluindo, claro, uma parada na cachoeira do Encontro dos Rios, a mais bonita dali, formada na união entre o Rio Bonito e o Rio Macaé.

Búzios num pulinho

Na volta para o Parador Lumiar, antes do almoço, uma boa pedida é um mergulho na piscina de água mineral vinda de uma nascente no terreno (que abastece tudo por ali, aliás, de torneiras aos lagos e cachoeiras; os copos localizados estrategicamente na bancada do banheiro dos chalés, atrás da pia, não deixam dúvidas disso). Na sequência, uma nova orgia gastronômica chega à mesa. O restaurante da casa é comandado pelo chef Isaías Neries, que já foi o braço direito de Flávia Quaresma e tem também um bufê muito conhecido no Rio, o Flor de Sal. Lá, você poderá provar, entre outras opções, o peixe típico da região, a truta, grelhado com arroz de inhame crocante e brócolis, e marinado com azeite de oliva e manteiga de ervas, com alcachofra de semente de capuchinha e lascas de castanhas do Brasil.

Ao pegar a estrada, se tiver uns dias a mais, a Serramar liga Lumiar a Casimiro de Abreu, na Região dos Lagos. Dali, é um pulo para Búzios e outros paraísos praianos.