Christina Oiticica: a mulher que enterra quadros
Rodrigo Accioly, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Nascida no Rio, a artista Cristina Oiticica divide seu tempo vivendo entre sua cidade natal e a França, onde passa boa parte de seus dias na região dos Pirineus, local de seu ateliê. Mesmo distante, seu sentimento pelo Brasil e pelo Rio permanecem fortes. Christina, ao lado do marido Paulo Coelho, fez parte da delegação brasileira que foi à Suécia e conseguiu trazer os Jogos Olímpicos de 2016 para a cidade. A emoção quando o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Jacques Rogge, anunciou a vitória do Rio é algo que ficará gravado em sua retina para sempre. Agora, é a vez dela de marcar a retina dos suecos. Eles serão os primeiros a ver de perto a força da arte ambiental de Christina Oiticica numa série de obras que tem a natureza da maior floresta do mundo como cocriadora.
Estou aqui na margem do Rio Negro. Hoje é dia 10 de abril de 2004. O que eu senti quando entrei na Amazônia, na floresta, é que a floresta é impenetrável. Você tem que realmente ter uma permissão, não só física como uma foice na mão ou uma faca que vai cortando para entrar. A natureza aqui é muito forte. Ela é muito concentrada, tanto visualmente como auditivamente, está viva. Muita viva.
O texto acima demonstra a emoção da artista plástica carioca Christina Oiticica diante da majestosa natureza da Floresta Amazônica. Ao longo do ano de 2004, ela percorreu recantos afastados, atravessou rios e florestas com o objetivo de estabelecer uma singular interação de sua arte com a terra. Em sua viagem, a artista enterrou 20 obras em locais de difícil acesso para, aproximadamente um ano depois, retirá-las, atestando o quanto a natureza interferiu em suas pinturas.
Em 2010, finalmente, a coleção Amazônia será mostrada em conjunto. Local: o centenário Hotel Diplomat, em Estocolmo, Suécia, com o apoio da Casa Brasil e do Jornal do Brasil. Para quem não se lembra, foi no Diplomat que, em 2008, a Casa Brasil e o JB realizaram a exposição 50 Years of Bossa Nova, repetindo o sucesso do evento ocorrido um pouco antes na sede das Nações Unidas, em Nova York. O hotel, localizado numa das mais valorizadas ruas da Escandinávia, a Strandvägän, é conhecido por ter recebido grandes personalidades da cultura como o bailarino Rudolf Nureyev e o papa da Pop Art, Andy Warhol.
Sintonia com a preservação
Casada há 30 anos com o escritor Paulo Coelho, um dos brasileiros mais conhecidos no mundo, Christina tem luz própria e se notabilizou como uma das principais representantes da chamada environmental art no mundo. Desde o início da década, a artista tem percorrido localidades ao redor do planeta enterrando (e desenterrando) telas nos leitos de rios, no solo das florestas, colocando os quadros dentro de árvores. Para Christina, uma artista com uma larga bagagem de viagens a lugares místicos em todo o planeta, a passagem pela Amazônia a surpreendeu.
Nas últimas décadas, a preservação da região tornou-se um dos principais temas da agenda internacional. Não sem motivo. O equilíbrio do clima no mundo é, de certo modo, dependente da preservação da floresta para que o aquecimento global torne o planeta cada vez mais quente e inóspito. Além disso, sua imensa biodiversidade está muito longe de ser desvendada. A arte de Christina é sintonizada com esta preocupação.
A artista traz para suas criações todo o poder dos quatro elementos da natureza água, terra, fogo e ar , refletido nas 16 telas que serão expostas em Estocolmo. É, portanto, uma oportunidade de apresentar a Amazônia para o mundo sob um prisma menos convencional: obras de arte nas quais a própria floresta é coautora.
O relato da viagem pelos rios da Amazônia foi repleto de momentos especiais, por vezes, mágicos. Christina começou a enterrar suas pinturas na localidade de Bethânia, Amazonas. Ali aconteceu o primeiro estágio do meu contato com a Amazônia, num lugar onde não havia tanta floresta assim. Eu pus os quadros, colocando entre eles folhas de plantas diferentes, para ver como seria esta influência da vegetação , descreve.
A aparente facilidade era uma ilusão. Quando os quadros foram recolhidos na localidade, em 2005, as dificuldades foram imensas. O terreno havia sofrido muitas alterações e enchentes. Em sua busca pelo feminino , em meio a seu percurso pelos rios da selva, a artista viu uma simbologia mística por trás das formas de uma árvore. Eu a vi, imensa, belíssima e ela tinha três mamas. Ou seja, tudo a ver com as coisas que eu trabalho: os signos, os seios, a alimentação, a loba. Foi aí que eu coloquei um quadro nesta árvore. Ele ficou lá um ano. Era um quadro com o portal do nascimento de Vênus, o Portal de Gaia .
Energia da Imaculada Conceição
Christina revela que, em sua concepção de arte, a energia da natureza tem uma importância maior do que a estética. A intenção não é só a da aparência estética do trabalho, embora seja muito importante. Mas é a importância da energia que aquele material pega, a energia da floresta, a parte invisível. É a pura energia da Imaculada Conceição, sabe? A mãe .
Um momento surpreendente da viagem foi quando Christina encontrou as índias Katukinas, no Acre. Lá, eu pintei junto com as mulheres da tribo, mulheres que se dedicam à arte tribal. Os símbolos indígenas são totalmente geométricos, mas eu não tinha tanto essa consciência, então, por exemplo: elas só queriam pintar na parte em branco para não interferir no meu trabalho; elas não faziam linhas curvas, elas me viram fazendo e começaram a imitar, mas era uma dificuldade muito grande para elas. Acabavam só trabalhando com linhas retas. Foi muito interessante. Elas riam quando eu pintava formas curvas como a lua ou um coração, era muito engraçado. Teve também uma índia que começou a amamentar o filho, foi uma cena muito bonita .
Dos 10 dias que passou em sua expedição na Floresta Amazônica, o momento em que a artista entrou na reserva da tribo indígena Katukinas foi especial. Foi ali, dentro da reserva, que a artista deixou dois quadros para a natureza trabalhar, um pequeno fazia parte da série Bocas e um grande cujo tema era o Amor no universo , uma tela de fundo azul que representava a junção de alguns símbolos femininos como corações e rosas tema recorrente de Oiticica com o universo, o sagrado.
Além de estar num solo muito fértil e rico, o momento do enterro ganhou ainda uma energia e uma benção especial, a do pajé da tribo. Ainda neste mesmo dia, a artista fez uma série de quadros em conjunto com as índias da tribo que chamou de Voz das Mulheres Katukinas .
