Atriz Carole Bouquet fala de engajamento, velhice e cinema
Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil
MANAUS - A beleza de linhas clássicas que serviu a tramas criadas por grandes diretores de cinema e a reclames de perfumes famosos agora também quer chamar atenção para a causa ecológica. Assim deseja Carole Bouquet, um dos rostos mais conhecidos e carismáticos do cinema francês, no papel de madrinha da 6ª edição do Amazonas Film Festival, maratona que reúne, até quinta-feira em Manaus, filmes e convidados nacionais e estrangeiros em torno do espírito de aventura, da natureza e do meio ambiente. É mais um acréscimo ao currículo da atriz que foi descoberta aos 19 anos de idade pelo mestre Luís Buñuel (1900-1983), para quem protagonizou Esse obscuro objeto do desejo (1977) e, desde então, passou a ser cortejada por realizadores como Bertrand Blier, Francis Ford Coppola e Claude Berry. Tudo é permitido para a atriz que foi Bond Girl nos anos 80 (007 Somente para os seus olhos, de 1981), o rosto da maison Chanel nos anos 90, e ganhou o César (o Oscar francês) de Melhor Atriz por Bela demais para você (1989), de Blier, e que não teme ou evita se preocupar com as desvantagens que acompanham a idade.
Pensar na velhice é uma perda de tempo, porque é inevitável. Enquanto a beleza for natural e não mantida artificialmente, estarei tranquila admite a atriz de 52 anos em entrevista ao Jornal do Brasil.
Qual o significado de ser madrinha de um festival de cinema tão exótico quanto este?
É uma forma de colocar uma pequena pedra do meu lado, porque não sou uma ativista ecológica ou coisa parecida. Mas, é claro, é um assunto que me é muito caro. Há 25 anos participo de uma organização que defende crianças maltratadas e esse trabalho me ensinou a ver que um único e pequeno passo é importante na construção de um mundo melhor. O fato de eu não ser um grande vulto na área da ecologia, de eu não ser um Al Gore, por exemplo, não diminui o significado da minha função aqui. É uma questão que pertence a todos nós.
É de alguma forma desconfortável participar de um festival de cinema sem filmes seus para mostrar?
De jeito algum. O cinema é o meu mundo, minha família, e o fato de eu não ter um filme em um determinado momento para falar a respeito não significa que não faço parte dele. Não sou atriz apenas quando estou atuando diante de uma câmera. É o mesmo que dizer para um cirurgião que ele não é um cirurgião quando não está operando alguém.
O que a senhora pretende conhecer sobre a região nessa viagem?
Infelizmente, tenho que voltar para a Europa amanhã (ontem). Só tive tempo de andar um pouco por Manaus. Antes de vir para cá, passei alguns dias no Rio. Mas pretendo voltar ano que vem, com mais tempo, para conhecer mais profundamente a Floresta Amazônica. Tenho planos de pegar um barco em Belém e vir até Manaus. É uma viagem de uma semana. Depois, vou entrar na floresta. Uma amiga fez essa viagem e me disse que é um passeio fantástico. Quem me dera fazer como (o antropólogo recém-falecido) Levis-Strauss, se meter no meio da floresta tropical e ficar por lá por algum tempo.
Falta-lhe tempo?
Sim, muito trabalho pela frente. Tenho projetos a serem executados até novembro do ano que vem, e em lugares diferentes. Em janeiro vou a Bruxelas, na Bélgica, fazer uma comédia. Depois, volto para Paris para fazer a peça La fausse suivante, a partir de um texto escrito por Marivaux em 1724. Em seguida, vou para Veneza trabalhar no próximo filme de (André) Téchiné (o mesmo de As testemunhas). Espero poder parar em algum momento porque em setembro volto para os palcos, para fazer leituras de uma nova peça.
Como a senhora descreveria a atual fase de sua carreira? Sente-se mais confortável agora do que quando começou?
É muito mais fácil, claro. E não é uma questão de trabalho, apenas. Sei que posso fazer um trabalho melhor. Sinto que tenho mais liberdade, porque tenho mais segurança. Ainda tenho muito o que aprender e, espero, muito o que fazer também, mas agora eu chegou ao set de um filme ou subo o palco de um teatro e é como estar em casa. Sei como funciona, como o meu corpo funciona.
Tem medo da velhice?
Não estou feliz com o fato de que estou envelhecendo, mas tenho consciência de que não tenho outra escolha. Decidi não pensar a respeito (risos). Envelhecer não é agradável, mas um processo que acontece com todo mundo. É um absurdo querer lutar contra isso, só faz a gente sofrer mais ainda. Enquanto a beleza for natural e não mantida artificialmente, estarei tranquila. E não tenho medo de trabalhar menos por causa da idade. O público de cinema atualmente é majoritariamente jovem, e eles querem ver histórias sobre a própria geração. Não há nada de errado nisso. Se você não acha justo, então nem comece a fazer cinema. No próximo ano, farei dois filmes, talvez até três. Mas, algumas vezes, passo alguns anos para fazer apenas um e, se eu gostar desse único trabalho, para mim já é o suficiente.
Qual foi o último filme que a senhora teve mais prazer em fazer?
Acho que foi Protéger et servir, que fiz com um diretor chamado Eric Lavaine, que já fez diversos trabalhos para o Canal +. Filmamos no início do ano, ainda nem vi o resultado, mas tive um prazer enorme de fazê-lo. É uma comédia muito sarcástica e incrivelmente politicamente incorreta, o que eu adoro! Minha personagem é muito má, uma chefe de polícia racista, desbocada, todos os defeitos juntos. O filme só estreia na França em fevereiro, não sei como as pessoas vão reagir, mas foi uma experiência particularmente divertida para mim. Um dos prazeres da atuação é poder fazer as pessoas rirem. E tenho feito muitas comédias ultimamente.
A senhora já trabalhou com os mais renomados diretores. Qual deles foi o mais marcante?
Minha vida mudou por causa de (Luís) Buñuel. Claro, eu tinha 19 anos de idade. Mas, eu me tornei a atriz que desejava ser de um instante para outro, nas mãos daquele homem talentoso. Estar perto de alguém como ele foi como conviver com um grande escritor ou um grande pintor, e isso lhe deixa uma marca muito profunda, e por toda sua vida.
