Jornal do Brasil

Cultura

Jovens atores relatam experiências na direção de montagens elogiadas

Jornal do Brasil

Daniel Schenker, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Não basta chegar ao posto de grande ator. Muitos intérpretes talentosos têm buscado o sucesso também na pele de diretores de teatro basta verificar que assinam vários espetáculos em cartaz na cidade. Caco Ciocler e Malu Galli comandam, respectivamente, Na solidão dos campos de algodão, de Bernard Marie-Koltès, que chega nesta sexta-feira à Praça do Centro Cultural Correios, no Centro, e A máquina de abraçar, de José Sanchis Sinisterra, no Espaço Tom Jobim, enquanto Otávio Müller dirige Adorável desgraçada, de Leilah Assunção, que acaba de chegar ao palco do Solar de Botafogo. Em outras duas montagens, os diretores também atuam, como Paulo José em Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar, e Beth Goulart em Simplesmente eu, Clarice Lispector. Completando o grupo, Guilherme Leme colhe elogios por sua encenação de Laranja azul, de Joe Penhall.

Não existe unanimidade entre eles. Há quem encare a direção como uma forma de adquirir um domínio maior sobre projetos pessoais e quem se aproprie de convites com dedicação, ainda que de modo mais despretensioso. Em nenhum dos casos, porém, fica a impressão de se tratar de um flerte de ocasião. Tendo começado ou não de maneira planejada, todos deram continuidade ao novo ofício. Caco Ciocler, por exemplo, está na quarta direção.

Na solidão dos campos de algodão é um texto é dificílimo. Minha concepção mudou durante o processo. Achei que qualquer interferência tiraria a atenção do texto. Cheguei a pensar em colocar os atores imóveis ou até invisíveis. Os espectadores escutariam apenas as vozes deles. Outra ideia foi fazer o público ver tudo através de frestas, na posição de voyeur relembra Ciocler.

Ciocler estimulou o vínculo pessoal dos atores com o texto.

Nunca acreditei em diretores impositivos que relegam os atores a uma condição passiva. Acho que o diretor é um orquestrador de desejos resume.

Otávio Muller começou a dirigir a partir de convites lançados pelo produtor Eduardo Barata. Contudo, sua curiosidade é antiga. Afinal, fez estágio de direção com Denis Carvalho na televisão e foi assistente de Bia Lessa na montagem de óperas.

Não tenho o talento da Bia Lessa, do Enrique Diaz ou do Felipe Hirsch. Minha primeira preocupação é a de me comunicar assume Müller, que também tem quatro direções no currículo.

Agora, em Adorável desgraçada, espetáculo que marca a comemoração dos 60 anos da atriz Debora Duarte, Otávio Müller foi convidado pela própria Leilah Assunção.

Não é uma comédia, gênero mais próximo de mim. Mas tem humor afirma.

Paulo José decidiu revisitar a obra da poetisa Ana Cristina Cesar (1952-1983) ao lado da filha, Ana Kutner, com quem divide a cena.

Utilizamos o texto de Kühner como ponto de partida. Foi um trabalho que surgiu do processo. Busquei a simplicidade dentro da complexidade do projeto observa Paulo José.

Diferentemente dos outros atores, Paulo tem exercitado a direção desde o início da carreira.

Dirijo desde o final dos anos 40, porque era metido, curioso. Sempre me considerei mais um homem de teatro do que um ator declara.

A experiência de Paulo José foi parecida com a de artistas como Sergio Britto e Fernando Torres, que acumularam funções, em especial as de ator e diretor, no decorrer de suas carreiras.

Quando comecei em teatro, os atores faziam tudo, não havia muita especialização. Flavio Rangel iluminava seus espetáculos. No Teatro de Arena de São Paulo trabalhávamos na bilheteria, na administração. O negócio era fazer teatro lembra Paulo José.

Definindo-se como artista plástico amador, Guilherme Leme tende a se envolver, em alguma medida, com a concepção cenográfica dos espetáculos que dirige.

Tenho pesquisado o neoconcretismo com Aurora dos Campos diz Leme, referindo-se à cenógrafa de A forma das coisas (2008) e O estrangeiro (2009), montagens que assinou (a segunda, ao lado de Vera Holtz), que também participará de RockAntígona, versão contemporânea da tragédia Antígona, que chegará aos palcos cariocas no primeiro semestre do ano que vem.

A experiência como artista plástico também serviu à concepção da cenografia de Laranja azul, a cargo de José Dias.

O espetáculo poderia ser feito com uma mesa e três cadeiras. Mas achei que aquela história aconteceria dentro de uma sala de hospital psiquiátrico. O cenário precisaria ser uma instalação. A estética veio na minha cabeça assinala Guilherme Leme.

Além de RockAntígona, Leme vai assinar, em 2010, O matador de santas, de Jô Bilac, com Angela Vieira no elenco.

Tudo acontecerá numa gaiola de passarinho, onde uma família estará enclausurada adianta.

Direção como consequência

Habitual parceira profissional de Leme, Beth Goulart assina a concepção de Simplesmente eu, Clarice Lispector, monólogo atualmente em turnê por 12 cidades do Rio Grande do Sul, que voltará ao Rio em Janeiro para temporada no Teatro Sesi e seguirá para São Paulo em abril.

A direção foi consequência do processo de dramaturgia. Eu visualizei a cena durante o processo. Resolvi apenas assumir isto constata Beth.

Este é o terceiro solo de sua carreira. No primeiro, Pierrot (1991), assinou a dramaturgia. No segundo, Doroteia minha (2002), concebido a partir de cartas trocadas entre Nelson Rodrigues e sua avó, Eleonor Bruno, dividiu a direção com Victor Garcia Peralta. Agora, decidiu assinar a direção, mas contou com supervisão de Amir Haddad.

Haddad acendeu algumas luzes durante o processo. Ele dizia que não se tratava apenas de um depoimento da Clarice, mas meu também destaca.