Crítica de "Kabul": montagem reafirma humanidade em torno da barbárie
Macksen Luiz, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - O grupo Amok prossegue com Kabul, em cartaz no Espaço Sesc, em Copacabana, a trilogia sobre a guerra, que se iniciou com O dragão, há dois anos. Como na montagem anterior, também nesta, a guerra é vista a partir daqueles que sofrem com sua irracionalidade, dos que têm suas vidas atingidas por ela e a morte como possibilidade cotidiana. O cenário bélico se individualiza para capturar existências estioladas, desejos suprimidos, despojos emocionais, num detalhamento dos estilhaços e das bombas que caem sobre sua sobrevivência. Existir em meio à negação, reafirmar humanidade em torno da barbárie, paralisar diante de inevitabilidades, a guerra lança desafios que atingem os mais recônditos escaninhos.
É neste espaço que Kabul penetra, ao criar paralelismo entre dois casais, sofrendo as consequências de uma nação mergulhada no fundamentalismo religioso e no autoritarismo político. As execuções, em especial de mulheres condenadas a se tornarem figuras invisíveis, são regidas por julgamentos sumários, derivados de ordenações sociais e políticas severas e cruéis. Os efeitos das pressões sobre o casal jovem, que interioriza a violência exterior, e o casal maduro, que encontra significado para o fim inevitável de ambos, se avizinham no texto de Ana Teixeira e Stephane Brodt. A construção narrativa se confina a áreas fechadas, casas pobres, prisão sombria, onde a destruição adquire o seu aspecto mais corrosivo, e em que a realidade ganha a verdadeira dimensão de sua desumanidade. Os autores particularizam o exterior para ampliar ressonâncias interiores, revestem de carne, ossos e alma, mulheres encobertas por burcas. E a burca se transforma em metáfora da crueldade do anonimato dos direitos individuais, vestido de indiferença e de desrespeito.
O texto, com simplicidade planejada e suavidade intencional, costura a tensão e virulência instalada nas vidas dos casais, até o desfecho em que se transgride o anônimo para desvelar a identidade. A direção, também assinada por Ana e Stephane, desmonta as cenas como demonstrativos da estrutura textual. A manipulação dos elementos cenográficos acompanha a circularidade da ação, ora centrada num casal, ora em outro, com pausas definidas para deixar clara a teatralidade da narrativa. Essa ambientação essencial, com figurino perfeito e iluminação despojada de atmosfera ensombrada, de Renato Machado, é acompanhada por música de Beto Lemos, que tão bem aclimata os quadros. O elenco revela a profundidade com que constroem as interpretações, resultantes de evidente procura de rigor e depuramento. Stephane Brodt, com composição corporal e força expressiva, dá o tom para os demais atores. Kely Brito e Marcus Pina sustentam, ainda que sem maior corporificação, o casal jovem. Fabianna de Mello e Souza deixa um tanto à mostra o percurso até chegar à sua atuação.
