Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

Cultura

O poeta Pedro Lyra critica a globalização

Jornal do Brasil

Fernando Py, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Como outras manifestações culturais

alternativas, aparecidas nos anos 60, o poema postal surgiu e teve como pioneiro entre nós, em 1970, o poeta Pedro Lyra. Elaborando cartões postais em que unia um breve texto poético à imagem escolhida, da qual o texto muitas vezes funcionava como legenda, Lyra dava início a uma técnica bem própria de divulgar a

poesia. Ainda que presa a uma vertente

do chamado poema processo, dele se distanciava ao admitir o emprego de versos, num contexto que poderia dispensá los, e formando um discurso bastante conciso, no qual a economia de vocábulos se responsabilizava pela

maior objetividade da mensagem.

Pedro Lyra afirma que o projeto

do poema postal foi alicerçado em

oito teses que, em suma, buscam

renovar a poesia, não à maneira elitista dos concretos, mas trabalhando novos aspectos gráficos e meios de divulgação rápida, o que faria o poema chegar a um número bem maior de leitores do que o livro impresso.

O poeta publicou várias séries de

poemas-postais, o que lhe granjeou,

além de divulgação extraordinária,

ser também considerado um precursor

da mail art, atualmente em pleno desenvolvimento no mundo inteiro. Recentemente, publicou mais uma série, toda inspirada em versos tirados do seu último livro: Argumento: poemythos globais, pela

editora Íbis Libris. Não se trata de

poemas inteiros, e sim de fragmentos

expressivos que acompanham a imagem veiculada. Esses poemas, contudo,

não resultam de mero diletantismo

de arte postal de alguém que se satisfaz com o pioneirismo alcançado. Podemos ver que, sem exceção, veiculam uma mensagem de fundo social, de estímulo à vida comunitária, de apelo ao companheirismo e à solidariedade.

Por outro lado, sustenta Lyra que a velocidade e a vertigem do mundo atual de certo modo exigem um texto de apreensão direta e rápida, o que não ocorre com a leitura de livros. Assim, o poeta dá bastante ênfase ao texto curto curtíssimo às vezes de forma a transmitir o máximo com o mínimo de palavras.

Porém nesta nova série o que se percebe de imediato é a preocupação

social de Lyra, sobretudo em face da globalização crescente do nosso mundo, como vemos no texto inicial: Estamos num mesmo barco. / Uma pedra que cai no mar oriental, / as ondas vêm quebrar/ nas praias do Ocidente .

Ou então critica acerbamente as

agressões ao meio-ambiente em toda parte: Estão torrando o planeta.

/ Vão explorar as cinzas / e reinar sobre o Nada. / E ainda pensam que vão / sobreviver .

Como não podia deixar de ser, Pedro Lyra desanca a guerra, como neste exemplo (que parece vir a propósito da invasão americana no Iraque, transmitida pela TV no mundo inteiro): A guerra pós moderna é um show. / Ou uma festa... . Não se trata apenas de uma postura ideológica, como poderia parecer. O

poeta volta-se também para a crescente

perda de privacidade do ser humano nos dias de hoje: Adeus,privacidade! / Um olho eletrônico nos vigia / até em nosso sono . Observe-se que, neste e em outros casos, a concisão de Lyra atinge a economia verbal do haicai.

Assim, os cartões postais de Lyra

satisfazem não apenas ao leitor que

procura formas diversas de apresentação de textos poéticos, mas

também àquele que se sente agredido

e humilhado pela política e a prepotência dos que mandam no mundo. A obra de Lyra é um grito de protesto e de solidariedade para com os oprimidos de todo tipo.

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