Diretora Sally Potter fala sobre 'Rage', longa em que Jude Law atua
Franz Valla*, Jornal do Brasil
NOVA YORK - Jude Law, Dianne Wiest, Steve Buscemi, Judi Dench, John Leguizamo. Um elenco de criar fila na porta de qualquer cinema, certo? Não no caso de Rage, novo longa da diretora inglesa Sally Potter. A produção de baixo orçamento não vai ser exibida nos cinemas, e sim distribuída de graça na internet, para ser assistido em celulares. O filme de 95 minutos não apresenta cenários ou interação entre os atores, centrado em monólogos, nos quais os 14 atores do elenco falam sobre suas supostas experiências nos bastidores da moda. O projeto que começou a ser disponibilizado nos EUA, Reino Unido, Austrália, Itália, França, Alemanha e Espanha no fim de setembro só foi possível porque a diretora encontrou apoio junto aos atores, que se mobilizaram para tornar o filme realidade. Muitos aproveitaram a experiência para fugir dos papéis que sempre interpretam em Hollywood, como o galã Jude Law, que rouba a cena como uma drag queen.
Após conceber a ideia, encontrei muita resistência em todos os níveis recorda Sally Potter. Mas, curiosamente, foram os atores que me deram força para prosseguir na ideia. Eles foram os primeiros a acreditar que o filme pudesse ser realizado. Sem o apoio deles, que aceitaram receber o mínimo pago para a diária de um ator numa produção, coisa bem irrisória, não estaríamos conversando aqui agora. Começamos, inclusive, a filmar sem a garantia de que houvesse financiamento para a pós-produção. Eles se prontificaram e quiseram fazer o filme a qualquer custo.
Sally Potter já fazia sucesso em seu país, mas foi com Orlando A mulher imortal, um roteiro adaptado e dirigido por ela para o cinema, baseada na novela de Virgina Woolf, que se tornou mundialmente conhecida, em 1992. O longa recebeu duas indicações para o Oscar e ainda lançou a carreira da atriz Tilda Swinton. Entre os sucessos da diretora também estão Uma lição de tango, de 1997, e Por que choram os homens, de 2000, com Johnny Depp, Christina Ricci, Cate Blanchett e John Turturro. A aventura de produzir esta nova empreitada, segundo a cineasta, não foi ideia recente:
Pensei no roteiro desse filme há uns 10 anos, mas deixei de lado porque a ideia original era fazer um filme convencional mesmo conta Sally. Depois comentei sobre isso no meu blog e comecei a receber muitas opiniões sobre como deveria produzir esse roteiro. Três anos atrás, finalmente me ocorreu que deveria fazer algo muito minimalista, simples mesmo, já que não há nada de original nessa história, apenas a forma de fazê-lo e a divulgação pela internet.
A diretora vê paralelos entre sua experiência e o inovador Sin City A cidade do pecado (2005), dirigido por Robert Rodriguez, que também contou com elenco milionário e os mesmos desafios à indústria convencional de cinema. As semelhanças param por aí.
As propostas são parecidas, especialmente em relação ao fato de a trama depender inteiramente da capacidade de interpretação dos atores. Mas os cenários de Sin City foram criados posteriormente em computador, de forma que no final ele ainda parece um filme convencional ressalta a diretora. No meu filme, os atores interagem somente com a câmera. Não tem como ser mais minimalista.
A cineasta reconhece que, não fosse o elenco poderoso, a experiência poderia não ter tido nenhuma repercussão.
Poderia funcionar, mas não atrairia tanto a atenção da mídia destaca a diretora. Essa ideia é muito perigosa, a indústria do cinema não quer saber de um filme feito somente com uma câmera e os artistas. Minha proposta é produzir e entregar diretamente ao publico. Espero que no futuro os filmes sejam feitos assim.
Para baixar o filme pela rede ou no celular basta ir ao site ragethemovie.com ou babelgum.com e seguir as instruções.
Apresentamos o filme pela primeira vez no festival de Berlin desse ano recorda ela. A recepção não foi muito boa. As pessoas o amaram ou odiaram. É uma obra muito intimista, que não funciona bem para uma plateia de mais de mil pessoas.
O investimento no longa cerca de US$ 1,5 milhão, irrisório para os padrões americanos ainda está longe de ser recuperado, mas a diretora mantém a esperança.
Fizemos um trabalho muito bonito e os atores colocaram o melhor de si nesse filme destaca. Ele pode ser visto por uma grande audiência, mas a única forma de medir o sucesso financeiro dessa empreitada vai ser através da venda de DVDs no site. Mesmo que esta empreitada não faça o sucesso esperado, tenho certeza que a próxima vai fazer. A internet está aí para democratizar a produção artística, sem intermediários entre a fonte e seu público. Chegou a hora de o público escolher o que quer ver, na hora em que quiser, e quanto acha que deve pagar. Isso se achar que deve pagar algo.
Assassinato mobiliza os bastidores da alta-costura
A trama de Rage gira em torno da indústria de alta-costura de Nova York. Os personagens, que transitam nos bastidores de uma grife, dão depoimentos a um adolescente, que não aparece ou fala no filme. Conhecido apenas como Michelangelo, ele registra com a câmera do celular tudo o que acontece antes de começar um desfile, que será marcado por um acidente. Uma investigação de homicídio tem início e a trama prossegue com os depoimentos dos mesmos personagens.
A primeira dama do cinema inglês, Judi Dench, faz o papel de uma crítica de moda. Bob Balaban, premiado ator e diretor americano, interpreta o consultor de marketing. Diane Wiest é a administradora da grife. Adriana Barraza, conhecida por seu trabalho em Amores brutos (2000), faz uma costureira da marca. O dinamarquês Jacob Cedergren interpreta o relações públicas da grife. Mais conhecidos por seus papeis de bandidos ou durões, John Lenguizamo e Steve Buscemi fazem, respectivamente, o segurança e fotógrafo de moda. Eddie Izzard, que esteve em Casino Royale (2006), é o milionário dono da grife. Os iniciantes Patric J. Adams, de Lost, Riz Ahmed, Lily Cole e David Oyelowo vivem o estagiário de marketing, o entregador de pizza e uma modelo. Mas quem rouba a cena realmente são Simon Abkarian, no papel de estilista, e o galã Jude Law, irreconhecível como a drag Minx, uma modelo transexual.
Esse elenco ajuda muito na divulgação dessa experiência audiovisual reconhece Sally Potter. Afinal, quem nao quer ver Jude Law como uma drag queen?
*de nova york, especial para o
jornal do brasil
