Jornal do Brasil

Terça-feira, 17 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Ivan Junqueira escreve sobre João Cabral

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Ivan Junqueira, JB Online

RIO - Pouco depois da morte de João Cabral, em 9 de outubro de 1999, escrevi brevemente sobre a sua poesia e m artigo que se publicou em dezembro na imprensa brasileira. Fiz questão de ali deixar claro que, com a morte do autor, se abria uma lacuna de provimento problemático ou mesmo improvável nos quadros da poesia brasileira contemporânea.

É que, a rigor, João Cabral não tem sucessores ou herdeiros em linha direta, mas antes epígonos, pouco importa aqui se talentosos ou não. E isso se dá em razão da exasperante originalidade de seu estilo, o estilo das facas, das lâminas, da lancinante e desértica secura de sua linguagem realista e antilírica, ao arrepio, portanto, de toda uma tradição que não é apenas da 1íngua, mas da índole e do próprio pensamento da língua, cujas matrizes poéticas radicam na melopeia e na logopeia.

Toda a poesia de João Cabral mergulha suas raízes na fanopeia, ou seja, na vertente que expressa uma realidade visual ou visualizáve1, tal como o vemos em García Lorca e em quase toda a poesia espanhola desde El Cid, em boa parte do mosaico alegórico da Commedia dantesca e, no âmbito da língua portuguesa, neste solitário e desconcertante Cesário Verde, poeta de um livro só, como Leopardi e Dante Milano. Ademais, a poesia cabralina é sempre concebida, como o pretendiam Leonardo da Vinci, e depois Paul Valéry, no que toca a qualquer realização artística, em termos de uma estrita cosa mentale.

Em Pedra do sono é ainda visível o tributo que João Cabral paga a certa dicção da poesia drummondiana e ao surrealismo. O próprio poeta o reconhece em diversas entrevistas ou depoimentos, como a que concedeu a Antônio Carlos Secchin, um de seus mais agudos intérpretes e autor de João Cabral: a poesia do menos. Nela diz o poeta que poderia perfeitamente eliminar Pedra do sono de sua obra, admitindo que, nesse livro, a influência surrealista é muito forte, mas o surrealismo só me interessou pelo trabalho de renovação da imagem .

Mas esse livro já traz em si o germe do construtivismo racionalista que irá caracterizar, a partir de O engenheiro, toda a poesia de João Cabral. A partir desse livro, cujos poemas atestam que a écriture de João Cabral jamais foi automatique, e sim artiste, o autor assume o compromisso com uma práxis a que nunca mais renunciará: poesia é construção, cálculo, projeto planejado em que não cabem os súbitos éclats da inspiração ou as névoas do encantamento enfim, é cosa mentale.

A O engenheiro seguem-se Psicologia da composição com a fábula de Anfion e Ántiode (1947), O cão sem plumas (1950) e O rio (1954). O cão sem plumas constitui, com a Psicologia da composição e O rio, o ápice do estilo apologal cabralino e introduz um outro dado novo na poesia do autor: o da fusão do sujeito com o objeto real, ou seja, o Rio Capibaribe.

O rio é nem mais, nem menos a relação de viagem que faz o Capibaribe da nascente à foz, e, porque assim o é, há, com a antropomorfização de seu curso, duas decorrências: a alegoria e o apólogo, ou fábula. E há também aí, como outra vez sabiamente o denuncia Antônio Houaiss, uma finalidade moral: O rio quer algo e muito haveria o que dizer sobre a sua vontade .

A bibliografia de João Cabral de Melo Neto inclui ainda, entre outros, Paisagem com figuras, Morte e vida severina, Uma faca só lâmina, Quaderna, Dois parlamentos, Serial e A educação pela pedra, que foram publicados entre 1 955 e 1966. E é nesse período que sua arte alcança a plena maturidade.

Tanto quanto qualquer outro de seus livros anteriores ou posteriores, A educação pela pedra privilegia, no nível da linguagem do poeta, sua busca incessante pelo que há de visual ou visualizável na realidade. Para que possamos compreender melhor esse procedimento, José Guilherme Merquior, em A astúcia da mímese, nos remete a uma figura da velha retórica preceptiva, ou seja, a hipotipose, que consiste em tomar as coisas visíveis e concretas.

Toda a arte estaria assim obrigada a revestir-se de concreção, mas a simples existência desse antigo tropo nos recorda quanto a 1iteratura, cuja matéria-prima não é de natureza sensorial, mas de natureza antes simbólica, será capaz de alcançar essa concreção para além do efeito analogicamente visual.

É através dessa conversão da autonomia do significante numa poética da visibilidade, sempre à margem de quaisquer pressupostos da visão metafísica, que a obra de João Cabral assegura à poesia brasileira um lugar de indiscutível destaque no concerto da tradição contemporânea.



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