Jornal do Brasil

Domingo, 25 de Junho de 2017

Cultura

Longa confirma Esmir Filho como um dos maiores de sua geração

Jornal do Brasil

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Uma das atrações mais esperadas da mostra competitiva da Première Brasil, Os famosos e os duendes da morte, exibido na noite de domingo, confirma a vocação como auteur do curta-metragista paulista Esmir Filho, responsável pelos premiados Saliva e Tapa na pantera, que aqui estreia em longas, e revela o talento escritor gaúcho Ismael Caneppele, autor do livro que inspirou a produção, na literatura geracional.

O filme, que ganhou o aval da Warner Bros. na distribuição, com lançamento previsto para março, descreve o cotidiano de sorumbáticos adolescentes de uma pequena comunidade alemã do Vale do Taquari, interior do Rio Grande do Sul, que fazem dos blogs e sites de relacionamento da internet sua janela para o mundo. O centro gravitacional da trama é a ponte de ferro que corta a cidade, cenário de inúmeros suicídios, tratados pela população como meros acidentes.

A incidência de suicídios entre jovens na região é alta esclarece Caneppele, de 30 anos, alimentou Os famosos e os duendes da morte com casos que aconteceram em Lajeado, cidade onde nasceu. Saí de lá há 12 anos, para buscar a carreira de ator em São Paulo. Demorei anos para conseguir voltar à cidade e superar o trauma.

Entrevista Ismael Caneppele

O livro nasceu de experiências pessoais?

Não consigo escrever sobre nada que não seja pessoal. Os famosos e os duendes da morte é uma história pessoal, mas não é biográfica. Na minha adolescência não existia internet. Saí de Lajeado aos 17 anos e caí no mundo louco de São Paulo. Quando voltei, anos depois, descobri que meus primos e os adolescentes de lá acessavam o mundo pela internet. Eu era visto como a pessoa que tinha visto o mundo verdadeiro, que só conheciam no virtual. Eles me procuram muito para saber sobre como era fora da cidade, se valia a pena ter saído de lá.

Qual era o seu objetivo ao escrevê-lo?

Queria escrever uma carta de despedida para a minha mãe e também fazer uma espécie de manifesto de partida. Se algum adolescente que se sente na mesma situação de isolamento e tem dúvidas sobre o que fazer, que leia o livro. Não oferece respostas, mas funciona como uma espécie de espelho. É um livro para mães, adolescentes e pessoas que decidiram sair de sua cidade.

Os suicídios são realmente frequentes por lá?

A ponte de ferro fica do lado da casa da minha família. O complicado de falar sobre esse assunto é que lá o suicídio é tratado como queda. Ah, fulano caiu da ponte hoje da manhã; sicrano caiu da ponte ontem à noite . O estranho é que essas pessoas tiveram o cuidado de tirar os sapatos antes de cair no rio. O incidente comentado no filme, sobre a mãe morreu na ponte é real: ela deixou a lasanha na geladeira para o filho e avisou que ia encontrar com o pai do garoto, que já tinha morrido.

E por que isso acontece em Lajeado?

Acho que é um fenômeno comum em comunidades de raízes alemãs. Meu bisavô se suicidou. Foi muito bom o Esmir ter ido lá conhecer a cidade, porque teve a chance de descobrir como aquelas pessoas se relacionam com a morte. No cemitério a gente encontra túmulos de pessoas ainda vivas, que deixam tudo pronto, com data de nascimento e uma foto muito bonita. Meu avô sempre falava: Eu muito cansado, acho que vou me pendurar . Pendurar usado no sentido de se enforcar, mesmo. A comunidade alemã trata a morte dessa maneira, muito normal. Lá perto fica Viranópolis, a cidade com maior casos de suicídios no Brasil, e a terceira no mundo.

Qual o papel da internet na vida dos jovens de lá?

A internet é muito forte lá, é uma revolução. Acho que funciona como um alívio, porque os adolescentes não se sentem mais sozinhos. Na minha época, eu tinha meus problemas e minhas vontades, que eram só minhas, já que não tinha com quem compartilhá-los. Eu era o cara errado da escola e pronto. Todo adolescente se sente isolado em seu mundo. Hoje, você entra numa sala de bate-papo e encontra 50 pessoas com as mesmas questões.

Entrevista Esmir Filho

Em que circunstâncias você descobriu o livro do Ismael?

Conheci o Ismael no lançamento de seu primeiro livro, Música para quando as luzes se apagam, do qual gostei muito. Tempos depois, ele me mostrou os primeiros manuscritos de Os famosos e os duendes da morte. Na época, já estava procurando algo que inspirasse o meu primeiro longa, algo que todo mundo cobrava.

E o que encontrou no livro?

Um sentimento adolescente que tinha tudo a ver com o meu trabalho até então. Vi afinidades com o universo dos curtas que eu fazia, principalmente o Saliva, que retrata a angústia movida por um beijo. Mais do que isso, achei imagens poéticas no livro do Ismael. Pedi permissão para trabalhar com aquele aquele esboço do livro para fazer um argumento e ele concordou.

Livro e roteiro foram desenvolvidos paralelamente?

Enquanto ele se aprofundava mais no livro, eu ia entrando com o roteiro. O Ismael ia descobrindo coisas sobre si mesmo e a cidade, para a qual a gente voltava de vez em quando, me explicava onde era a ponte de ferro e tudo mais. Esse processo acabou resultando num livro de um filme e um filme de um livro, uma adaptação literal.

Elenco e colaboradores do filme são de Lajeado...

Todos descobertos durante as pesquisas para o livro e para o filme. O Henrique Larré, que faz o protagonista, veio de lá. Foi durante o processo de pesquisas que descobri a Tuane (Eggers), que interpreta a jovem que assombra a cabeça dos garotos. Ela também é autora das fotos e os vídeos usados no filme foram feitos por ela também. Depois encontrei o Nelo (Johann), que compôs as músicas.

Como um filme contemplativo pode atrair os jovens da era da comunicação imediata?

Acho que pode funcionar como um respiro para essa geração. Eu respeitei o tempo real daquele lugar. Posso estar sendo otimista, mas acredito no tempo do filme. É como um e-mail que mandei e ainda não responderam.

Entrevista Esmir Filho

Em que circunstâncias você descobriu o livro do Ismael?

Conheci o Ismael no lançamento de seu primeiro livro, Música para quando as luzes se apagam, do qual gostei muito. Tempos depois, ele me mostrou os primeiros manuscritos de Os famosos e os duendes da morte. Na época, já estava procurando algo que inspirasse o meu primeiro longa, algo que todo mundo cobrava.

E o que encontrou no livro?

Um sentimento adolescente que tinha tudo a ver com o meu trabalho até então. Vi afinidades com o universo dos curtas que eu fazia, principalmente o Saliva, que retrata a angústia movida por um beijo. Mais do que isso, achei imagens poéticas no livro do Ismael. Pedi permissão para trabalhar com aquele aquele esboço do livro para fazer um argumento e ele concordou.

Livro e roteiro foram desenvolvidos paralelamente?

Enquanto ele se aprofundava mais no livro, eu ia entrando com o roteiro. O Ismael ia descobrindo coisas sobre si mesmo e a cidade, para a qual a gente voltava de vez em quando, me explicava onde era a ponte de ferro e tudo mais. Esse processo acabou resultando num livro de um filme e um filme de um livro, uma adaptação literal.

Elenco e colaboradores do filme são de Lajeado...

Todos descobertos durante as pesquisas para o livro e para o filme. O Henrique Larré, que faz o protagonista, veio de lá. Foi durante o processo de pesquisas que descobri a Tuane (Eggers), que interpreta a jovem que assombra a cabeça dos garotos. Ela também é autora das fotos e os vídeos usados no filme foram feitos por ela também. Depois encontrei o Nelo (Johann), que compôs as músicas.

Como um filme contemplativo pode atrair os jovens da era da comunicação imediata?

Acho que pode funcionar como um respiro para essa geração. Eu respeitei o tempo real daquele lugar. Posso estar sendo otimista, mas acredito no tempo do filme. É como um e-mail que mandei e ainda não responderam.

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