Jornal do Brasil

Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

Cultura

A peça 'A máquina de abraçar' questiona isolamento humano

Jornal do Brasil

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Desde a década de 90, a dramaturgia do espanhol José Sanchis Sinisterra, 69, tornou-se essencialmente familiar ao teatro brasileiro. Admirado por diretores como Aderbal Freire-Filho responsável por Ay, Carmela (1993) e Christiane Jatahy, recordista em montagens do autor Ñaque, de piolhos e atores (1991); Perdida nos Apalaches (1997), dirigida pelo próprio; A falta que nos move ou todas as histórias são ficção (2005) e Leitor por horas (2006) Sinisterra volta à cidade para acompanhar a estreia de um novo rebento: o texto inédito A máquina de abraçar, que marca a primeira direção da atriz Malu Galli e inaugura o galpão do Espaço Tom Jobim, a partir de quinta-feira.

O novo texto aborda a relação entre uma autista (que criou para si a tal máquina) e sua terapeuta, vividas pelas atrizes Mariana Lima e Marina Vianna. Como resposta à guarida caliente que seus textos recebem no país, Sinisterra reage com humor, faz pouco caso da qualidade e acentua facilidades de produção .

É um orgulho e um fato que me surpreende ter tantos textos encenados revela Sinisterra. Externamente à essa questão da qualidade , só posso pensar que tenho bons amigos no Brasil e que minhas obras não são de produção cara. Brincadeiras à parte, às vezes, penso que estou cumprindo minha ambição de ser um autor ibero-americano, mais até que europeu. Sempre me surpreende a inventividade, a atração pelo risco, a ousadia e a extraordinária fluidez orgânica dos atores e atrizes brasileiros e latinos. Sei que as condições materiais não são fáceis no Brasil, mas isso parece incentivar a criatividade.

Intercâmbio assimétrico

A despeito da boa receptividade, Sinisterra considera o intercâmbio entre as produções teatrais brasileiras e espanholas vergonhosamente assimétrico . Revela que, em geral, o teatro espanhol ignora todo o teatro latino-americano, salvo exceções à dramaturgia argentina. Em relação ao Brasil, a dupla desculpa recai sobre a distância e diferença idiomática.

Com o Brasil essa ignorância se agrava. Por exemplo, não tenho notícias de nenhuma montagem profissional de Nelson Rodrigues, isso para não falar de autores vivos lamenta. De fato, tenho um projeto com Aderbal Freire-Filho, há muitos anos, para diminuir esta assimetria.

A máquina de abraçar se baseia no relato de uma autista concedido durante uma entrevista ao famoso neurologista e escritor Oliver Sacks, retirada do livro Um antropólogo em Marte. Mais do que utilizar o autismo como ferramenta para investigar a dificuldade em estabelecer contatos e a a impossibilidade da comunicação entre humanos, o dramaturgo se interessa pelo distúrbio como expressão de uma parte inacessível da consciência humana .

Os autistas são casos extremos de uma característica comum que temos. O outro é inacessível para mim. Talvez por isso seja tão difícil encontrar uma simetria na afetividade elabora Sinisterra. Todos nós necessitamos de uma máquina de abraçar. Mas a obra questiona também modos opostos de se viver: o ativismo e a passividade, a combatividade e a contemplação, além do pensamento racional e o conhecimento poético.

Sinisterra conheceu a atriz, e agora diretora Malu Galli, à época em que o monólogo Diálogos com Molly Bloom esteve em cartaz, em 2007. Após dirigi-la, o dramaturgo então ofereceu um texto que acabara de escrever. Pensava que Malu poderia interpretar a protagonista. Com o presente em mãos, Malu teve imediatamente vontade de dirigi-lo.

Continuo pensando o ator e a interpretação, só que inverti a posição de câmera diz Malu.

Sinisterra aprovou a surpresa:

Devo dizer que ofereci o texto a Malu, pensando nela como atriz - recorda o diretor. Mas não é frequente encontrar atores com a combinação de inteligência e sensibilidade que ela possui. Além disso, me interessou o que eu chamaria de sua expressividade translúcida. Às vezes luminosa e misteriosa.

Poucos elementos cênicos

Em A máquina de abraçar, Sinisterra propõe uma situação dramática e proposta cênica simples e peculiar de seu trabalho: duas mulheres, a terapeuta e sua paciente, conversam entre si e para a plateia.

Em geral, tendo ao que chamo de uma teatralidade menor. Como abordar grandes temas com o mínimo de elementos dramáticos e cênicos? Less is more me parece uma boa fórmula artística. E um desafio interessante, sem falar das questões financeiras de produção.

Além de tratar da incomunicabilidade, A máquina... estimula o questionamento de pilares da sociedade, como a linguagem, a política, a ciência, a espiritualidade e a natureza. Juntos, compõem seu atual objeto de investigação.

Uma grande pergunta para mim é como ser comum hoje em dia. E o teatro me ajuda a propor estas perguntas. Do ponto de vista temático, me preocupa a progressiva anestesia do ser humano diante do horror e da dor. E por último, a religião como doença quem sabe incurável da espécie humana, causa de inúmeros males.

Sinisterra, que já levou à cena obras de Joyce, Melville, Kafka, Cortázar e Saramago, continua a prestar tributo à literatura como fonte de inspiração para seus personagens geralmente anti-heróis. O autor, que até há pouco alimentava o sonho de adaptar Budapeste, de Chico Buarque, agora se dedica a executar uma montagem de Clarice Lispector.

Tenho uma grande dívida e inveja da literatura e sua liberdade conta. No teatro, não me interesso por heróis. Penso que cada derrota é única. Cada fracasso é excepcional.

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