Jornal do Brasil

Sábado, 26 de Maio de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Allan Sieber cria retratos ácidos em 'É tudo mais ou menos verdade'

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Bolívar Torres, JB Online

RIO DE JANEIRO - Imparcialidade, isenção, e credibilidade. O manual do bom jornalismo com certeza não prega os mesmos ensinamentos do quadrinista gaúcho Allan Sieber, que prefere a via tendenciosa, parcial e levemente ou, vá lá, pesadamente ficcional de É tudo mais ou menos verdade, que reúne algumas de suas reportagens em quadrinhos realizadas para revistas como Trip, playboy e Zé Pereira, e está sendo lançado na 14º Bienal do Livro, mas sem a presença do autor para autógrafos ( Graças a Deus, não preciso ir até lá , brinca).

Os ombudsmen de plantão podem até reclamar, mas não deixarão de sorrir amarelo com as coberturas sarcásticas das afetações do Fashion Week, das vaidades e beletrismos da última Flip, ou ainda do retrato da bizarrice social e humana presente nos favelas tours para turistas (também conhecidos como favela safári) , ou nos cursos de sedução barata. Conhecido por seu humor escrachado, Sieber cria sem remorso suas próprias regras jornalísticas para invadir as teias organizadas do nosso mundo e encontrar as mais variadas perversões.

Com certeza, é o mais próximo que eu cheguei do jornalismo em quadrinhos, mesmo que muita gente mais gabaritada, como Joe Sacco, tenha feito melhor. Não tenho nenhum compromisso em ser fiel aos fatos. É apenas a minha percepção. E claro, está mais atrelado ao viés do humor do que dos fatos diz Sieber, que recusa, porém, o rótulo de repórter gonzo. O gonzo é o estilo de um homem só. Ninguém conseguiu emular o que o Hunter Thompson fez, que é se entupir de drogas e álcool e ainda assim produzir algo de qualidade.

Hitler no Leblon

Além das citadas reportagens , a coletânea traz outros trabalhos do quadrinista, como narrativas memorialistas, fábulas (com as suas recorrentes figuras antropomórficas) ou simples desenhos anunciando shows com seu amigo Flu, com quem volta e meia se apresenta misturando música e desenhos ao vivo. Assim como a diversidade temática, o traço de Sieber também não se prende a um padrão definido, às vezes mais livre, outras mais rigoroso. Mas, atravessando todos seus desenhos, a análise dos costumes se mantém como o fio condutor de sua obra. Observador atento, o desenhista não se furta em se apropriar das referências modernas que nos cercam e nos definem.

Eu me interesso pelo cotidiano diz o quadrinista, que criou o autorretrato exclusivo que ilustra a capa do Caderno B. Tento ligar minhas tiras ao nosso tempo, mas sem que fique datado. Minha preocupação é que, daqui a 30 anos, as referências não se percam. Meu trabalho é 90% observação. Se você sentar na mesa de um restaurante e ficar atento ao que se passa ao redor, sempre vai ter material, porque as pessoas são muito estúpidas. Fecham-se em prisões particulares: o cara sai na rua de óculos escuros, boné, fone de ouvido, sem perceber o que se passa ao seu lado.

Enquanto a sátira corre solta nos quadrinhos, grupos sociais e tribos surgem diante dos nossos olhos. Haja playboys, patricinhas, pitboys, emos, punks mamãe e outros garotos de apartamento revoltados ( O cara se diz punk, usa cabelo espetado, tatuagem, piercing e, de repente, a mãe dele lhe leva Nescau na cama , dispara o desenhista). As redes sociais orkuts, twitters e fotologs e outras ferramentas de espetacularização do indivíduo também não escapam do pincel ferino de Sieber.

É doido, as pessoas perderam a noção do que é público e privado de um jeito patético e absurdo diz o autor. Acordam e escrevem num twitter ou num blog: Hoje tô de ressaca. Acho que vou vomitar . E depois completa: Não, não vou . Todo mundo quer ser o biógrafo instantâneo de si mesmo. O resultado são histórias desinteressantes contadas de um jeito mais desinteressante ainda.

O próprio Sieber, porém, não se furta em colocar sua intimidade nas narrativas. Difícil não encontrar um desenho sem sua figura, que às vezes se impõe como distanciada e lacônica, outras como histérica, junkie e cheia de manias. Criando um personagem de si mesmo, o desenhista expõe suas crises conjugais, seus excessos de copo e seus traumas de uma infância humilde e antissocial.

Tem muito de exagero diz o desenhista, mas logo muda de ideia: Quer dizer, na verdade acho que na vida real sou mais neurótico e menos engraçado. No retrato, tendo a dourar a pílula. Sempre alguém reclama cobrando veracidade, diz que eu me desenho mais magro do que sou, ou com mais cabelo. Mas este é um personagem fixo que eu estabeleci. O desenho cria um estereótipo. É inevitável.

Nascido em Porto Alegre, Sieber está desde 1999 no Rio, onde criou a produtora Toscographics ( a menor megacorporação do mundo ), que produz animações e vinhetas. A condição de estrangeiro apenas aguçou seu interesse pela observação. Em Hitler no Leblon, que imagina como seria se o líder nazista estivesse vivo e morasse no bairro, o desenhista faz um resumo ácido das idiossincrasias da Zona Sul carioca. Estão lá fenômenos como o biscoito grobo , Manoel Carlos, o parasitismo estatal da classe artística, a alienação e o preconceito. É no aconchegante bairro que Seu Dodô bebe sucos no SS Lanches, aprecia rodas de samba (porque não tem nenhum negro ) e conquista a juventude queimando mendigos.

Nos últimos anos, percebi que Rio e Porto Alegre têm muitas semelhanças. Ambas têm um certo orgulho de si mesmas, por motivos bizarros. Como dizer que o pôr do sol do Guaíba é o mais bonito do mundo... Mentira! O Guaíba é um lago podre, nojento. No Rio, aplaudem o pôr do sol de Ipanema, essas coisas idiotas. E as duas cidades têm um lado pequeno e provinciano. A Zona Sul é uma tripinha, as pessoas não saem dali.

Para continuar estreitando as relações entre quadrinhos e jornalismo, Sieber prepara uma adaptação das reportagens de João do Rio, que deve ficar pronta até o fim do ano.

Tenho uma sensação de intimidade com João do Rio, um personagem que transitava desde a alta burguesia até a ralé, das festas chiques aos cais e casas de ópio, com um olhar irônico e sarcástico. São relatos de costumes, como procuro nos meus quadrinhos e que mostra o que eu mostro: há 100 anos as pessoas eram estúpidas, como continuarão sendo daqui a 100 anos.

Combinação entre texto e desenho vem do século 17

Combinação entre jornalismo e quadrinhos é caso antigo. Sua origem está nas charges e caricaturas dos jornais do século 17, os precursores do movimento que alia a representação gráfica a reportagens. Mas é a partir da década de 80 que Joe Sacco cunha o termo jornalismo em quadrinhos , incorporando os métodos de apuração jornalística a suas obras. Pela publicação de Palestina Uma nação ocupada, onde enquadra a realidade dos campos de batalha do Oriente Médio, ele recebeu o prêmio American Book Awards em 1996 e, desde então, as documentações do repórter e quadrinista nascido na Ilha de Malta são respeitadas como importantes retratos das áreas de conflito ele também passou por Iraque e Bósnia.

Talvez pela crueldade das imagens, os temas de guerra são os que mais recorrem ao gênero, utilizando-se principalmete de recursos híbridos entre ficção e biografia. Ainda nos anos 80, Maus, clássica graphic novel do americano Art Spiegelman, acompanha a luta de seu pai judeu para sobreviver ao Holocausto. Mais recentemente, a iraniana Marjane Satrapi narrou sua história em meio à Revolução Islâmica em Persépolis (2000), e o americano Josh Neufeld retratou a tragédia do furacão Katrina, que arrasou Nova Orleans, no recém-lançado livro ilustrado A.D.: New Orleans after the deluge.

Para Allan Sieber, o uso dos desenhos para ilustrar as matérias em lugar de fotografias enriquece o trabalho jornalístico:

O repórter e o fotógrafo acabam se juntando na mesma pessoa, que vai a campo e captura o ambiente com o traço. O desenho é uma ótima forma de se contar uma história. Pode ser mais fiel do que uma foto.



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