Jornal do Brasil

Terça-feira, 25 de Novembro de 2014

Cultura

Paródias musicais: Traduções toscas viram vício na Internet

Jornal do Brasil

Cecília Abreu, JB Online

RIO - A Internet encurtou distâncias, trouxe modismos e tendências, muitos efêmeros, quase descartáveis. Mas um deles parece ter vindo para ficar: os vídeos com paródias ou popularmente conhecidos como traduções toscas de músicas famosas. As engraçadas e despretensiosas brincadeiras resistem há algum tempo, e vem crescendo cada vez mais, particularmente entre os jovens.

Seus criadores traduzem as músicas pelo som e não pelo seu real significado. Associam os sons ouvidos em qualquer língua (principalmente inglês e japonês) com palavras parecidas em português e procuram imagens que as representem. O resultado é sempre muito engraçado e ágil.

Hoje já existem muitos artistas experientes no ramo - como Pedro Paulo Reis, de 27 anos - que conseguem o inimaginável. Canções conhecidas ganham novas e hilárias versões, geralmente sem nexo, mas irresistíveis no quesito diversão. É fundamental ver a nova letra em português enquanto se escuta o som original e, assistem as imagens que se sucedem rapidamente, representando a tradução .

- Costumo fazer no meu tempo livre. Eu já tive outras experiências no passado de produção de conteúdo humorístico para Internet, me inspirei também no trabalho que a Companhia do Salame fazia. Acredito que isso tenha me ajudado. Já as traduções em inglês algumas foram fáceis outras difíceis. É necessário ouvir o mesmo trecho de música várias vezes, até achar uma palavra ou frase que se pareça mais explica o versátil administrador de empresas, Pedro Paulo, que é natural de Varginha, Minas Gerais.

U2 - Vertigo

http://br.youtube.com/watch?v=1HdhIeUxWPg

Código do vídeo:

Karaokê do Pânico: as traduções toscas na TV

O programa Pânico na TV percebeu o fenômeno, difundido pela Internet através do YouTube, Orkut, blogs e outros sites, e resolveu criar o quadro Karaokê do Pânico. Dessa forma, os telespectadores podem se manifestar e enviar suas próprias criações. Desde fevereiro deste ano, quando o Karokê foi criado, a produção vinda de todos os cantos do país aumentou consideravelmente. Seus criadores querem mais é ver seus vídeos na TV.

- Estava garimpando coisas engraçadas na Internet para o programa e achei uns vídeos engraçadíssimos no Youtube do Pedro Paulo Reis, que aproveitou músicas famosas e brincou com as letras e as imagens. Colocamos alguns dos vídeos dele no ar, como uma tradução de "Have You Ever Seen The Rain do Creedence Clearwater Revival e da música Vertigo, do U2. Vimos que a idéia era ótima e partimos para produzir nossas próprias paródias conta Daniel Peixoto, redator e criador do Karaokê do Pânico, hoje uma das grandes atrações do Pânico na TV.

As criações próprias da equipe do Karaokê do Pânico partem de idéias que Daniel Peixoto começa a burilar em casa, procurando as associações que levem à melhor piada visual. Para ele, essa é a essência do sucesso tem que ser ágil, engraçado, tanto no áudio quanto no visual. Na adaptação para a TV, geralmente, o refrão não é repetido diversas vezes, para não alongar a música e não repetir a mesma piada. Deve-se respeitar o tempo curto que a TV pede.

A equipe do Pânico já parodiou músicas de diversos artistas e bandas, entre eles, Oasis, REM e Eric Clapton. Tantas outras surgiram de tradutores desconhecidos, que ganham crédito quando o vídeo vai ao ar.

- Em um primeiro momento, percebi que existia muito material de tradução vindas dos seriados japoneses. Preferimos não nos utilizar das músicas japonesas, pois as associações de som do japonês com a língua portuguesa levam em geral a muita bobajada, palavras chulas . Fica besteirol demais. Prefiro as músicas famosas em inglês. É um trabalho difícil, mas muito divertido acrescenta, salientando que o sucesso é d e toda a equipe e daqueles que colaboram com o programa.

As letras, criadas pelo próprio Daniel, contam com a colaboração dos editores Frederico Nacarato e Rica Mentex. Já a execução e arte são obras do criativo estagiário, Higo Lopes.

As traduções toscas também já têm história para contar

A moda das paródias é anterior ao YouTube, a grande ferramenta de difusão das brincadeiras. Tudo começou com um grupo de amigos (a Companhia do Salame), fãs do seriado japonês Jaspion, que, de tanto ouvirem a música Daileon, perceberam que a letra se assemelhava muito à língua portuguesa. Fizeram então a primeira "tradução", que resultou num texto muito engraçado e totalmente sem nexo, a conhecida O Cara Tossiu . Dali por diante, muitas outras traduções surgiram com o intuito de homenagear outros super-heróis, como Jiraya, Jiban e Changeman.

Vídeo: O cara tossiu http://www.youtube.com/watch?v=Om0s89__WGs

O primeiro vídeo de todos e inspirador de tantos outros< /i>

Mais recentemente, o vídeo Coma um Boi também homenageou o seriado Jaspion, através da sua música de abertura. O comediante carioca Marcos Castro, de 22 anos, e um dos criadores do vídeo, conta que ele e alguns amigos fizeram a brincadeira durante as férias, relembrando o super-herói japonês mais famoso de sua infância.

Eu particularmente não gosto muito das traduções em inglês, pois essa língua não tem a parte fonética tão parecida com o português como o japonês tem. Quando a gente ouve um japonês falando, a gente associa diretamente o que ele fala a uma palavra em português, o que não necessariamente acontece com o inglês -explica Marcos.

- As pessoas fazem hoje a ligação do meu trabalho de comediante com o vídeo Coma um boi . Isso é bom, pois não importa como, o objetivo de um comediante é ser engraçado. E nesse ponto o "Coma um Boi" me ajuda diz Marcos, que também é estudante de Matemática.

Vídeo - Coma um Boi - http://www.youtube.com/watch?v=QLrabsx4U40&feature=related

Código:

Jovens se identificam mais com a paródia do que com o original

A aceitação é total e rápida, principalmente entre os jovens, embora seus pais muitas vezes sejam contagiados pela brincadeira.

- Eu gosto quando eles conseguem pegar as palavras totalmente diferentes do significado real, só que bem parecidas com as originais no som. Essas frases e tiradas ficam na nossa mente e depois você passa a cantar a música pela tradução e não do jeito original. Sem falar que eles colocam montagens ótimas diz a estudante de psicologia Fabiana Carrilho, de 24 anos.

- Adoro os vídeos que brincam com as músicas indianas. Essas músicas nunca fariam sucesso aqui no Brasil, mas alguém achou e resolveu traduzir e ainda mantiveram as imagens originais dos clipes, que são cheias de danças excêntricas daquele país e engraçadas por si só. Um ótimo exemplo é o vídeo Rivaldo sai desse lago . Morro de rir acrescenta Antônia Araujo, de 26 anos.

Há quem considere os vídeos terapêuticos :

- Esses vídeos são ótimos. Terapia do riso. Fiz vários cursos de inglês, mas sou muito travado, tinha medo de pagar um baita mico pela pronúncia por conta do meu estilo Borat de falar inglês. Mas com esses vídeos toscos, agora posso soltar a voz e rir das coisas que falo. Pena que essa moda não surgiu quando eu era um molequinho. Eu nunca teria tido nenhum trauma revela Hernane Vieira, de 23 anos.

Site de alguns dos tradutores:

Pedro Paulo Reis: http://cestosemtido.blogspot.com

Marcos Castro: http://marcoscastro.com.br

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