Jornal do Brasil

Terça-feira, 19 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Primeiro SACD de música clássica feito no Brasil chega as lojas

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Hugo Cals, Agência JB

RIO - A música clássica é um gênero refinado com um público seleto, com ouvido apurado. Apesar de não figurar na lista dos mais vendidos ou abrigar concertos para grande platéias, os requintes sinfônicos de violinos, flautas, e outros instrumentos tem muitos adeptos ao redor do mundo. Audiófilos, os fãs deste tipo de música sempre primam pela qualidade sonora de registros lançados. Será lançado em outubro no Brasil, o primeiro SACD (super áudio CD) brasileiro do gênero, nova forma de tecnologia que abriga um campo sonoro muito maior (leia-se mais qualidade) do que os cds comuns. O JB Online pediu para o especialista em música clássica e engenheiro civil aposentado, Carlos Eduardo Muniz da Silva, para escrever sobre este lançamento. Segue o texto na íntegra:

Acaba de me chegar às mãos um exemplar de futuro lançamento nacional de um auspicioso registro fonográfico, programado para o mês de outubro de 2007, caracterizando o primeiro SACD de música clássica no Brasil. Trata-se das Variações Diabelli, op 120, de Beethoven, em primeira gravação mundial usando afinação histórica, embora em instrumento moderno. O executante dessa monumental obra é o pianista brasileiro Marco Alcântara, que escreveu o livrinho que compõe o lançamento, com 173 páginas, com textos em inglês e português, o qual comporta uma sede para acondicionamento do CD.

A composição se insere no período espiritual, derradeiro, da produção beethoviniana, no qual a obra do mestre se sublimou com exuberância tal que não encontra símiles nos anais da música universal. Portanto, trata-se de uma auspiciosa iniciativa, num momento em que a música clássica vem sendo tão vilipendiada pela indústria fonográfica, especialmente a nacional.

A respeito da obra, registra a história a pretensão de Anton Diabelli, também ele compositor além de editor, no sentido de que uma valsa de sua autoria fosse objeto de variações que deveriam ser compostas pelos mais destacados compositores coevos do autor, incluindo-se entre eles Franz Schubert e o menino prodígio de onze anos, Franz Liszt. A princípio, Beethoven rechaçou a empresa por achar que a valsa, por seu escasso valor musical, não merecia sua atenção, o que não o impediu de, posteriormente, acabar compondo essas variações, que se constituíram em uma de suas obras cimeiras e de maior importância.

Sobre o futuro lançamento, afora o aspecto artístico da interpretação, louve-se a excelência da composição gráfica, embora não me agrade a efígie do compositor escolhida, que mais se assemelha à de um ator humorístico da TV. O sorriso afivelado em seu semblante em nada se coaduna com a habitual sisudez do gênio de Bonn. De qualquer forma, é digno de todos os encômios o texto elaborado pelo pianista brasileiro, que evidenciou uma rara sabedoria musical, especialmente na seara beethoviniana do período derradeiro.

Confesso que, numa primeira audição, não me agradou a característica tímbrica do piano com a afinação histórica, que, a meus ouvidos, conferiu ao resultado sonoro uma sugestão de falta de brilho e de emotividade. Aliás, registre-se que a peça em si, não obstante seu extremado valor musical, é destituída de páthos , em comparação com outras obras pianísticas do compositor.

Tive a sensação de que esse aspecto a que acabo de referir não está presente, tão nitidamente, nas interpretações que já ouvi em instrumento com afinação tradicional. Confrontei esta versão com a do pianista argentino Daniel Barenboim, que, a princípio, causou-me a impressão de soar mais arrebatada e expressiva, favorecida pelo uso da sonoridade a que meus ouvidos estão afeitos. Todavia, numa segunda audição percebi que foi inteiramente falsa a sensação de carência de brilho. Agradou-me mais, desta feita, o timbre produzido pela afinação histórica, cuja sonoridade já me pareceu bem mais próxima da que estamos acostumados; acrescente-se a isso o ganho fonográfico proporcionado pelo sistema super áudio.

Quanto ao artista, percebe-se que se trata de um estudioso e conhecedor profundo da obra em apreço, o que, ainda que não fosse por suas evidentes virtudes, já tornaria o lançamento digno de ser entusiasticamente recomendado, aos consumidores de música de elevado nível de concepção e, também, magistralmente modelada num nível de compreensão musical e de interpretação em perfeita sintonia com a envergadura da obra.



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