Jornal do Brasil

Cultura

Corisco ainda ilumina as telas

De volta às telas como Tancredo Neves em O paciente, Othon Bastos passa em revista sua trajetória de lutas em prol de uma arte crítica para entender o sentido da democracia hoje

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Patrimônio vivo, e ativo, da arte dramática brasileira, aos 85 anos, o baiano Othon Bastos volta às telas nesta quinta-feira, como protagonista de “O paciente – O Caso Tancredo Neves”, um dos filmes nacionais mais esperados do ano, no qual encarna o estadista que simbolizou a luta democrática pós-ditadura. Ao encarnar o político, em suas derradeiras horas de vida, sob a direção de Sergio Rezende (de “O homem da capa preta” e “Canudos”), o eterno Corisco – papel que celebrizou o veterano ator em 1964, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” – passa em revista memórias de suas quase sete décadas a serviço de uma forma crítica de interpretar. Egresso do teatro estudantil da Bahia da década de 1950, veio jovem para o Rio de Janeiro, para fazer arte de guerrilha nos palcos, atuando e produzindo, indo de “Lampião”, de Rachel de Queiroz (1954), a “Murro em ponta de faca”, de Augusto Boal (1978), sem deixar passar um “Galileu Galilei”, de seu oráculo, Brecht, em pleno 1968.

Macaque in the trees
Othon Bastos protagoniza o novo filme de Sergio Rezende, que se detém sobre os últimos dias de vida de Tan (Foto: Divulgação)

No circuito exibidor, empresta um rosto à ideologia do Cinema Novo, indo dos clássicos de Glauber Rocha à releitura de Leon Hirszman para Graciliano Ramos, em “São Bernardo”, pelo qual ganhou o Kikito de melhor ator em Gramado, em 1974. Participou de marcos cinematográficos também nas décadas seguintes, como “Central do Brasil” (1998) e “Bicho de sete cabeças” (2000), sem abrir mão da TV, onde mobilizou milhões de espectadores como o mordomo do mal na novela “Império”, de Aguinaldo Silva, em 2015. Na entrevista a seguir, Othon revê sucessos, sonhos e saudades, em um balanço sobre o que significa ser ator neste país.

JORNAL DO BRASIL: Qual é a maior responsabilidade de encarnar Tancredo Neves?

OTHON BASTOS: Tancredo representou algo que parece ter se perdido no Brasil: a dignidade na política. Ele foi de uma dignidade fantástica e ficou célebre, na memória de várias gerações, por seus feitos em prol da democracia. Mas o que eu quis compor nesse filme, sob a direção do Sérgio Rezende, não foi o político e, sim, o ser humano, um homem em busca da reabilitação de si mesmo. Tem gente que me pergunta que linha dramática eu escolhi para viver este papel e, quando me questionam isso, eu lembro de uma frase de um grande ator, o Paul Scofield (ganhador do Oscar por “O homem que não vendeu sua alma”). Scofield dizia: “Ator é alguém que passa horas e horas num palco ou num set, à espera de si mesmo”. Para ser Tancredo, eu revisitei minhas experiências, como a de ter encenado “Galileu Galilei”, de Brecht, em pleno AI-5, com medo de que invadissem o nosso teatro e prendessem a gente, por estarmos expressando nossa resistência. Tancredo foi alguém que resistiu, menos por ambição política e mais por honestidade.

E qual o Brasil que encontra, hoje, esta sua revisão crítica de si mesmo e de Tancredo?

Um Brasil da pusilanimidade, em que ninguém pensa no bem do outro. Eu imagino como Tancredo reagiria vendo isso tudo. Imagino o que ele pensaria de seu neto. Nós estamos diante de um Brasil num total vazio de respeito ao próximo, no qual ninguém sabe o que vai acontecer.

Qual é a principal diferença dos novos tempos para os dias do Golpe de 64, quando você ganhou as telas do mundo todo como Corisco, o Diabo Louro, de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, a partir da projeção do filme em Cannes?

A diferença central é que, naquela época, você sabia quem era seu inimigo. Ele usava farda. Hoje, você não sabe de quem deve desconfiar. Isso gera descrença, e de modo generalizado. Agora, apesar disso, não me interessam esses rompantes de ir embora do Brasil. Se eu não fui na época brava, da tortura, não tenho porque ir agora. Trabalhei num período em que a gente se expunha, em cena, apesar do medo. É preciso ter força... e seguir.

Seu rosto está em cena em vários filmes que consolidaram o cinema moderno no Brasil e levaram nossa estética para festivais como os de Cannes e Berlim, como “São Bernardo”, de Leon Hirszman; “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de Glauber Rocha; e “Os deuses e os mortos”, de Ruy Guerra. Ao mesmo tempo em que a história do Cinema Novo passa por você, marcos de décadas mais recentes, como “Central do Brasil” (1998), contam com a sua participação. O que significa seguir fazendo filmes hoje, com um currículo desses?

Cada época tem um significado político, ético... desde que você esteja inteiro em cada papel. E eu sempre estou. Por isso, até hoje, eu tenho medo. O medo é parte da responsabilidade de atuar, apesar de toda a sua experiência, porque atuar é uma corrida de revezamento: você precisa dar o melhor de si. E fazer “O paciente”, agora, trouxe pra mim a certeza de que eu ainda sou capaz. Este filme do Sergio Rezende me mostrou a importância de ter forças, em cena, para mostrar ao espectador coisas que ele talvez não perceba. Era isso o que a gente fazia com a turma do Cinema Novo: lutar para revelar as coisas. Leon Hirszman era um homem político que me ensinou a grandeza de se seguir em frente. O Glauber me deu a chance de experimentar Brecht no cinema. Naquela época, em 1968, eu fiz “Capitu”, baseado em Machado de Assis, com o Paulo César Saraceni, que me deu chance de explorar dimensões existenciais da condição humana, no auge daquele momento de tensão política. Aqueles artistas cultuavam a força da expressão livre. E pagaram o preço por isso: olha quanto tempo eles demoravam para filmar, com a dignidade necessária para expressar suas ideias. 

Você citou Glauber Rocha... No início dos anos 1960, ao participar de “O pagador de promessas” (único filme nacional a conquistar a Palma de Ouro em Cannes) e de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, você revolucionou a maneira de atuar no cinema brasileiro ao introduzir os métodos de Bertolt Brecht nas telas, como o distanciamento crítico. Qual é o lugar de Brecht e sua conscientização política hoje, na Arte?

Quem é que ainda se lembra de Brecht hoje, neste momento em que se vive, no Brasil, um total desprezo pela cultura? Eu sou de uma época em que um ator de teatro fazia nove apresentações de um espetáculo por semana. Hoje, se uma peça fica sexta, sábado e domingo em cartaz, já é muito. Fora isso, se você quiser buscar, na Arte, num olhar brechtiano, alguma metáfora para o Brasil, este símbolo do nosso atual estado de abandono é o incêndio do Museu Nacional. Nossa memória foi incendiada. Estamos queimando até hoje, pois anos e anos de memória que estavam ali dentro foram destruídos. E como é que se reage a isso? Como se reage à sensação de vazio de se passear por Copacabana, na Princesa Isabel, e ver o Teatro Villa-Lobos abandonado?

Quando você fala de memória, isso evoca a sua própria experiência: você carrega em seu corpo a vivência de quase sete décadas de interpretação. Está no teatro desde os anos 1950 e no cinema desde 1962: 85 anos de vida, cerca de 60 anos de palco. O quanto a idade pesa? O que a idade te traz?

Quem não respeita sua velhice não é digno dela. Eu tenho ainda alguns anos de vida e não quero gastar esse tempo ficando em casa de pijama ou jogando dominó na praça. O que me interessa é viver, e viver e criar. Criar é mais importante do que ser feliz. Viver é mais importante do que a posteridade.

Em 2015, você botou o país no bolso no papel do mordomo Silviano em “Império”, uma das novelas de maior audiência da TV brasileira desta década: 40 milhões de telespectadores se renderam a seu personagem, que se revelava vilão quando menos se esperava. Quais são seus planos para a TV e o cinema agora?

Agora, estou no banco de reserva, à espera de um convite, mas não quero ficar parado, nem me repetir. O fato de ter feito Tancredo agora vai significar uma série de ofertas para viver gente velha, doente, às portas da morte. E eu não quero isso. Quando eu fiz o Corisco, pro Glauber, passei anos só recebendo convites para viver cangaceiros, bandidos sociais e assassinos. Quero trabalhar, mas não me repetir.

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O ator em "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964) (Foto: Reprodução)

Onde é que a Martha Overbeck, atriz e produtora que é sua companheira há mais de cinco décadas, entra na sua trajetória de criação?

Ela é a minha grande parceira, de vida e de arte. E é uma atriz extraordinária. Enquanto produzíamos teatro, nós dois estávamos sempre juntos, nos palcos. Fiz peças que marcaram época, como “Um grito parado no ar” e “Murro em ponta de faca”. Mas, hoje, não vejo mais sentido em produzir. Qual é o sentido de se esforçar pra ficar só de sexta a domingo em cartaz, tendo que pedir esmola dos patrocinadores para abrir o pano? Antes, teatro era um ofício de vivência diária, onde você tinha tempo de se investigar a partir de uma peça.

Onde é que a Bahia, sua terra natal, manifesta-se no seu modo de atuar? O que ficou de sua cidadezinha, Tucano, na sua arte?

O meu eu, minha raiz, está lá, nos dias de seca dos anos 1930, na lembrança de ouvir meu avô dizer: “A chuva é uma dádiva de Deus”.

Você falou de medo, que atuar é saber ter medo. Qual é o seu medo hoje?

Talvez o fato de não ver nenhum candidato falar de teatro, falar de um projeto sólido para a cultura e a educação. Medo, a gente sempre tem. A gente só não pode se deixar abater. Eu faço arte, ainda, em filmes como “O paciente”, para não deixar a gente se abater.

*Roteirista e crítico de cinema



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