Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017

Colunistas - Comunidade em pauta

Guerra nas favelas: o resultado do abandono do poder público 

Jornal do BrasilDavison Coutinho

A guerra ocorrida no Jacarezinho nas últimas semanas é apenas mais uma demonstração da violência que os moradores de favelas sofrem desde a sua origem. O abandono do poder público permitiu que esses espaços fossem utilizados para fornecer a droga que o morador consome, mas que também o playboy da Zona Sul consome em sua cobertura. A miséria permitiu o uso de forma ilícita dos espaços da favela. 

O poder público é sim o responsável por essa violência e por todas essas mortes, seja de policial ou seja de bandido. Eu volto a afirmar que tudo é resultado do abandono das favelas. Depois de décadas o governo do Rio de Janeiro implementa um projeto falido de pacificação que só objetivou levar armas para as comunidades. O resultado já era esperado: mais violência. E o modelo de confronto continua tirando vidas, deixando crianças sem aula, população de transporte e prejudicando os moradores. 

O morador fica no meio dessa queda-de-braço entre polícia e traficante. Sabemos que no modelo atual de segurança pública, essa queda-de-braço não terá fim e o único que sai perdendo é o morador, pagando com seu sangue o resultado de uma cidade partida. Mas como dizem, a morte na favela não tem a mesma importância que a morte na cidade. E infelizmente temos que concordar com essa afirmação. Afinal, quem morre na favela é logo tratado como suspeito. 

Vivemos em uma cidade que hoje chama atenção pela violência que não se limita mais apenas às favelas. Os limites transbordaram para toda a cidade, por isso a preocupação. Essas operações policiais são totalmente ineficazes e sem resultados positivos. Uma tentativa fadada ao fracasso pois atua apenas no sintoma e não na causa deste sintoma. Do que adianta essas prisões se todos dias são soltos dezenas de criminosos que não foram ressocializados, e que voltam para o crime. Como disse o colega Celso Athayde: “uma roda gigante de marginais que vão e vêm como se fossem uma brincadeira de criança de pega-ladrão”. 

É preciso mudar. Boa semana a todos!

* Davison Coutinho, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestre em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade

Tags: artigo, comunidade, davison, jb, pauta

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