Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017

Colunistas - Comunidade em pauta

A grande perda: Dona Elísia da Rocinha 

Jornal do BrasilDavison Coutinho

Por trás daquelas simples vestes, de uma fala firme e temperamento forte, estava Francisca Elísia de Medeiros Pirozi, ou como era mais conhecida, Dona Elísia: a líder comunitária que chegou ainda jovem na Rocinha para fazer história. Ela é natural do município de Caicó no Rio Grande do Norte e subiu pela primeira vez na Rocinha aos 24 anos, quando o morro ainda era só de lama. Como muitos nordestinos que vem para o Rio de Janeiro, Dona Elísia não oportunidade de estudar, e por isso, usava o tempo livre para aprender a ler e escrever sozinha.

Dona Elísia não aceitava ver as crianças na Rocinha sem acesso à educação e as oportunidades, um reflexo do que ainda hoje vivemos nas comunidades, imaginem há 50 anos atrás. Ela era inquieta e começou a buscar as crianças para aprender a ler e escrever. Aos 40 anos, venceu mais um desafio, concluiu o magistério com diploma do Ministério da Educação para assim servir de exemplo aos seus alunos e se especializar ainda mais à educação.

Em 1980, fundou o Centro Comunitário da Rua Um União Faz a Força que hoje possui uma creche onde são atendidas cerca de 150 crianças. Em 1981 surgiu a parceria com a PUC-Rio, por meio do Núcleo de Estudo e Ação Sobre o Menor NEAM/PUC-Rio. A líder comunitária exigiu da universidade naquela época um compromisso dos pesquisadores em deixar um legado para comunidade. A parceria é de mais de 35 anos e resultou em diversos projetos, como a construção do prédio do Centro Comunitário na Rua Um, diversos cursos de qualificação aos moradores, bolsas para aprendizado da língua inglesa, e o mais importante foi possibilitar o ingresso de moradores da comunidade no ensino superior.

Líder comunitária que chegou ainda jovem na Rocinha para fazer história
Líder comunitária que chegou ainda jovem na Rocinha para fazer história

“O mundo é pequeno diante de tanto amor e dedicação. Sua atuação como líder comunitária derrubou barreiras e construiu parcerias para que os jovens tivessem um futuro mais prospero. Que Deus a receba como filha do amor aos pequenos”.  Profª Marina Moreira, diretora do NEAM/PUC-Rio e amiga pessoal de Dona Elisia.

Ela construiu a creche para os pequenos e depois se preocupou com o destino destas crianças. Na Rocinha, eram raros os casos de jovens que ingressavam na faculdade. A sua preocupação deu origem ao Pré-Vestibular Êxito no colégio Teresiano para ajudar os jovens da Rocinha chegarem à universidade. Ainda aos 77 anos, Dona Elisia continuava sua missão de cuidar dos menos favorecidos, ensinando ela própria a algumas crianças com seu método de alfabetização com recortes de jornais.

“Hoje, o céu está em festa.Hoje, mais uma estrela brilha no céu. Vai em paz minha mãe, lutou bravamente até o fim.Um dia a gente se encontra.Lembrarei de ti todos os dias da minha vida. Eu sei que sempre estará ao meu lado me guiando ......Para sempre te amarei.Até sempre te amarei....Até um dia mãe.” Adriana Pirozi, filha de Dona Elisia.

Aqui, peço licença para contar minha relação pessoal com Dona Elisia. Ela me chamava de Zé do Queijo, em referência ao meu avô, um antigo líder comunitário da Rocinha. É inegável a importância desta senhora na minha vida e de todos outros jovens que estudam e se formaram na PUC. Ela foi quem abriu os portões da universidade em um grito de socorro aos moradores da Rocinha. Graças ao destino e vontade de Deus, tive a oportunidade de trabalhar com ela por muitos anos e sempre tive muito prazer em ouvir seus ensinamentos. Entre elogios, broncas e conselhos, tivemos uma relação de muito amor às crianças e jovens da Rocinha.

Que o caminho de Dona Elisia seja de muita luz e que Deus conforte à família e a todos nós amigos.

O velório será realizado entre 11h e 14h na quadra da Rua Um na Rocinha. O sepultamento está previsto para 16h no Cemitério do Catumbi. 

Tags: comunidade, comunitária, família, líder, rocinha, sepultamento

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