Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

Colunistas - Comunidade em pauta

Liberdade do goleiro Bruno é sintomática

Jornal do BrasilMônica Santos Francisco*

É sintomático quando uma sociedade, no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, e em que durante todo o mês intensificam-se as manifestações e ações que buscam visibilizar os abusos e as violações extremas a que são submetidas as mulheres no mundo todo, que surja com força e ampla exposição midiática, o fator Bruno, o goleiro acusado e condenado no caso do desaparecimento e morte de Elisa Samúdio.

Vale ressaltar que a mulher em questão, buscou auxílio do estado para salvaguardar sua integridade e lutava pelo reconhecimento de paternidade de seu filho. 

Neste mês de Março em que no dia 16 último, lembramos a execução bárbara de Cláudia Ferreira da Silva, por policiais militares do Rio de Janeiro e o suplício público do seu corpo, arrastado pelas ruas de uma via pública, aos olhos de todos e em plena luz do dia, nos leva à refletir que há algo de muito errado.

Todas as referências nos noticiários à época, tanto em um caso como no outro, pouco mencionavam os nomes destas mulheres inicialmente. Eram a "suposta amante" ou a "arrastada".

Trabalhar no sentido de que os direitos das mulheres sejam garantidos e exercidos plenamente por elas, que suas identidades sejam respeitadas, e que não sejam sistematicamente tratadas em casos de violações quaisquer, serem tratadas de forma jocosa, principalmente por órgãos públicos e veículos de comunicação concessionários do direito de veicular informações, é sim dever do estado e o é também de toda sociedade. 

Principalmente as mulheres que se encontram em situação ainda mais vulnerável, como as mulheres pobres e negras. Sim, é preciso marcar este recorte, principalmente pelo processo contínuo de invisibilização da condição destas mulheres em especial, naturalização das suas dores, bem como a estigmatização histórica, que acabam reforçando esse quadro e perpetuando os absurdos.

Não é a soltura de Bruno o problema. O problema é ver no caso Bruno/Elisa, a diferença no tratamento e na forma como ambos são olhados pela sociedade como um todo. 

Esse fato expõe o quanto o sofrimento é morte (Feminicídio) das mulheres é ignorado vergonhosamente  e o quanto ainda precisamos avançar no sentido de defendê-los e garanti-los.

* Colunista, Consultora na Ong Asplande e Membro da Rede de Instituições do Borel 

Tags: Sociedade, elisa samudio, feminicídio, goleiro bruno, política

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