Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Março de 2017

Colunistas - Comunidade em pauta

Um perigoso dia de sol nas águas da Maré

Jornal do BrasilWalmyr Junior 

Calor forte, sol queimando a cabeça e estava eu esses dias dando uma volta na colônia de pescadores da favela Marcilio Dias, no Complexo da Maré, e me deparei com uma cena impressionante: crianças da favela curtindo de boa o mergulho no ‘Cais da Kelson’, em meio à beleza e o lixo da Bahia de Guanabara.

A cena que ao mesmo tempo é saudosista é estarrecedora. Saudosa por me fazer lembrar da época de menino, que fazia o mesmo que essas crianças, nadando em meio aos barcos e a já presente sujeira de óleo e esgoto da década de 1990. É ao mesmo tempo estarrecedora por saber que nos últimos 20 anos a Bahia está muito mais poluída e o perigo de se nadar nela é eminente.

O local que na década de 1970 era conhecido por ser a famosa ‘praia da moreninha’ agora é marcado pelo abandono e o descaso. De paraíso ecológico para concentração da poluição. O pior de tudo é ver as crianças da comunidade no meio.

Local antes conhecido como a famosa ‘praia da moreninha’ agora é marcado pelo abandono e o descaso
Local antes conhecido como a famosa ‘praia da moreninha’ agora é marcado pelo abandono e o descaso

Em 20 de agosto de 2013 o Jornal do Brasil denunciou a ausência do Estado na possível manutenção do cais da colônia de pesca que caiu. Reportamos ao ministério da Pesca e Aquicultura e a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, à época, e nada foi resolvido. Hoje em dia o numero de pescadores diminuiu e o custo da pesca aumentou, justamente pelo fato dos pescadores não terem onde descarregar o pescado.

A falta de equipamentos de lazer e diversão na favela influência na perigosa aventura das crianças no verão. Os moradores se veem distante da possibilidade de usufruir as praias da cidade, haja vista que a passagem do transporte público aumentou novamente, a gestão passada da prefeitura alterou os trajetos das linhas de ônibus, e sair de casa ficou muito mais caro.

Sobra para o favelado o de sempre: o risco de viver.

* Walmyr Junior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor, membro do MNU e do Coletivo Enegrecer. Atua como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ

Tags: Artigo, comunidade, favela, pauta, Rio de Janeiro, walmyr

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