Jornal do Brasil

Quinta-feira, 26 de Maio de 2016

Colunistas - Comunidade em pauta

Meu black não é assim

Jornal do BrasilWalmyr Junior *

Esse artigo foi escrito por mim e pelo Militante do Coletivo Nacional de Juventude Negra – Enegrecer, Nassor Oliveira. A intenção dele não é atacar os participantes ou organizadores da festa aqui citada, ou mesmo desmerecer a contribuição de pessoas de não negras para o movimento cultural, mas problematizar a dificuldade inerente ao povo negro em se ver representado, até mesmo na cultura que historicamente o identifica.

No último fim de semana, após o lançamento das fotos de mais uma edição de uma festa na Mansão Botafogo denominada “Meu Black é assim”, seguidos compartilhamentos trouxeram um evento da sua repercussão rotineira para o centro de debates sobre apropriação cultural, identidade, estética negra, e como não poderia faltar, debates acalorados envolvendo o racismo institucional.

Ao abrir a página da festa no facebook vemos uma foto de perfil com uma analogia a modelagem de cabelo “Black Power”, porém não é só um Black Power comum, é um Black Power em forma de vinil, situando bem qual a associação que foi feita. Essa imagem, popularizada nos anos 70 como expressão estética de um movimento cultural, musical e também político, empoderou milhares de negros e negras não só naquele tempo, e que mais do que nunca retorna hoje como um símbolo de resistência a cultura hegemônica. 

Black Power em forma de vinil
Black Power em forma de vinil

Até aí tudo não tinha nada de mais, mas já na foto de capa do facebook do evento surge o elemento que contribuiu para a polêmica. Temos duas meninas loiríssimas de cabelo liso vestindo o boné do evento. Alem disso a cada 10 fotos publicadas se encontra ½ negro, a maioria esmagadora das imagens representam o público do evento: fenótipo tipico dos bairros mais elitizados do Rio de Janeiro (Tipo branco/a da zona sul), o que gerou fúria nos comentários e uma mobilização virtual que gerou mais de onze mil comentários só no álbum desta edição, fora os milhares de compartilhamentos e discussões que rolaram na rede. 

E por que nós negros nos incomodamos tanto com isso? -“Era só ter comprado o ingresso para ir a festa?” – “o jovem negro favelado não foi na festa por que não quis?” – “Agora vai ter que ter cota nos eventos?”

Não, não é nada disso. Ainda existe uma barreira que divide a cidade, os espaços de sociabilidade, e isso vai muito além do escopo deste evento em particular, ele é só um exemplo de um fenômeno muito maior: As desigualdades estruturais, a marginalização do negro e a associação entre cor e condição financeira, qualquer pessoa que negar qualquer um desses fatos desafia a razão.

O que tem acontecido, como diria o rapper Emicida, é que a cultura negra, ou a Black culture (para gourmetizar ainda mais) está na moda. A estética, a música, e até mesmo o dialeto utilizado pelos negros dão o toque urbano e conceitual, e quem diga “exótico” à imagem da elite. Comercialmente falando, isso se torna um fenômeno explosivo, associando elementos da cultura que representa um povo, é associando a figura historicamente aceita pela sociedade da população não negra.

É fato que uma festa com fins lucrativos não tem obrigação de representar ninguém, o problema é que uma sociedade com fins lucrativos funciona da mesma forma. O mais vendável, o já instituído, prevalece. O marginalizado olha para a TV, para os comerciais, para todas as representações públicas e não consegue se enxergar. Nem mesmo nos locais onde ele de fato está na realidade, como os bailes funk das novelas, até mesmo o lugar ocupado infelizmente pela maioria negra é representado na TV por modelos brancos saídos de revistas adolescentes.

* Walmyr Júnior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor e representante do Coletivo Enegrecer como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

Tags: Artigo, comunidade, júnior, pauta, walmyr

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