Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

“Tá tudo de cabeça pra baixo”

Jornal do BrasilMônica Francisco *

Escrevi há alguns dias em minha coluna que voltávamos à vida real e enfim o ano começava de fato. Após uma maratona, ou melhor, uma overdose de futebol – dando a entender que tudo mais à semelhança do período de carnaval parece ficar estagnado –, a realidade nos bate à porta com força total. Iniciada a campanha eleitoral, e só isso se basta, sem necessidade por hora de mais delongas, haverá tempo para isso. 

A Fifa, quem diria, acabou recebendo o troco daquele chute no traseiro que queria nos dar, porque pretensiosa não ouviu o conselho sábio de nossa dama maior do samba, de que aqui nesse chão tem que pisar devagarinho, porque sim, o Brasil não é para principiantes. E isso a gente sabe bem. Ainda mais quem é daqui, do Rio. Parece que o noticiário de tiroteios e incursões no Morro do Alemão saiu de uma reprise. As balas perdidas encontrando pessoas mais perdidas ainda no meio dessa sociedade cada vez mais policializada, militarizada, judicializada.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Parece o livro do Kafka, aquele do processo, em que um homem é levado de sua casa sem saber o porquê, submetido a um interrogatório e se perguntando a quem havia desagradado, se era alguma retaliação divina a algum pecado cometido, ou algum infortúnio impetrado contra alguém. Não se recordava de nada. Nossa jovem democracia, este jovem país. É, só temos 514 anos, grande parte deles manchado pelas trevas da escravidão, que durou 388 anos, ou seja, só temos 126 anos de ausência desse regime hediondo. Menos de 30 anos de democracia e os ajustes tem urgência de serem feitos.

Em vez de rompermos com velhos e maus costumes, os reforçamos ao dar exageradamente à força e não ao diálogo o poder de resolver nossos problemas, ou aquilo que julgamos ser problema, pois até eles, os problemas, tem uma função importante, nos fazer amadurecer e aprender a encontrar meios inteligentes de resolvê-los.

Os poderes se assustam com a contestação, com a inquietação dos que não aceitam mais conviver com velhas práticas senhoriais. Entendemos a demora, a má vontade na real democratização de todos os meios, sabemos que isso para queles que se inquietam no alto de suas torres, encastelados do poder ou beneficiados por compadrios, não querem que nós o povo, esse indivíduo asqueroso, saia de seu lugar de submissão.

Não quero trazer aqui questões que denotem algum juízo de valor ou tomada de partido, sei também que imparcialidade é só um mero detalhe, mas não podemos negar o estrago que a mídia alternativa com todos os seus meios fez no sono de muita gente do andar de cima. Sem contar junho, ah junho! Junho é agora, é hoje quando você lê essa coluna, quando você se indigna, quando reporta aí do seu celular, tablet ou a outro meio tecnológico as aberrações, arbitrariedades e injustiças cotidianas.

Quanta arrogância dessa gentinha e suas redes sociais, fazendo espumar de ódio e pavor aqueles que antes com seus guardanapos e suas gangues movidas à cachoeiras de champagne francesa nem se preocupavam ao posar para fotos.

Eis que recebo a ligação de uma amiga que mora na França, em Paris. Pasmem gente! Favelado hoje tem amiga que mora em Paris. Esse mundo realmente tá de cabeça para baixo. Mas deixando os entretantos e indo para os finalmentes, como diria o velho Odorico, ela quer saber como está o Brasil, como as pessoas estão vendo esse início de campanha eleitoral, a derrota da Seleção, a situação das favelas. Fala dos sobrinhos que são de Volta Redonda e estão lá, da dificuldade por aqui em relação à educação, do que esperar do futuro.

Conversamos e ao desligar, lembrei da questão das empregadas domésticas, da jornalista que não conseguiu em Salvador renovar o passaporte por causa do seu cabelo 'blackpower', do nosso racismo violento e letal, da humilhação que um jovem amigo sofreu por parte de uma professora universitária que pelas atitudes demonstra total desagrado em ter gente "como ele" na sua sala.

Ouço no rádio do celular algo sobre a queda do avião, a ofensiva, meu Deus, ofensiva Israelense, quase 300 mortos, a epidemia de Ebola, o HIV assustando de novo depois de tanto tempo, e que pode tomar status de epidemia, a morte do João Ubaldo, da dona do restaurante, a operação acontecida  na Maré. Tudo isso sem contar na frente fria que está chegando. É gente, o ano começou quente e no inverno!

"A nossa luta é todo dia. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO e ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL, ao VOTO OBRIGATÓRIO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Consultora na ONG ASPLANDE.

Tags: Artigo, coluna, Francisco, JB, monica

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