Jornal do Brasil

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Sociedade clama por reformulação profunda de nossas instituições

Jornal do BrasilMônica Francisco*

Neste domingo eu não fui à manifestação que aconteceu na Tijuca, mais precisamente na Praça Saens Peña. Domingo é o meu dia, e nem aos meus arroubos ativistas eu dou abertura. Mas não pude deixar de acompanhar as situações que sucederam ao início da manifestação. Achei fantástico, como venho achando, o trabalho das polícias Brasil afora, mas a do Rio de Janeiro está particularmente de parabéns. Parabéns porque está dando ao mundo o prazer de conhecer parte do tratamento que nos dá aqui nos becos e vielas das favelas e periferias deste Estado.

Mas nada se compara ao sentimento de surpresa dos moradores da tradicional área da classe média carioca, a Tijuca, ao ver a polícia que tanto clama para conter aqueles a quem desejariam não ter compartilhando o mesmo espaço geográfico, a não ser para servir-lhes e dar-lhes a utópica sensação de pertencerem  a castas mais superiores, alvo de seu desejo mais incontrolável.

Foi o momento de sorver de forma traumática o cálice do qual as classes trabalhadoras que vivem nos morros ou como queiram favelas/periferias vêm bebendo há muito. Ser mulher, criança, idoso, cidadão ou cidadã de bem e que paga seus impostos, não adiantou para sensibilizar ou fazer ceder os policiais que impediam a circulação nas ruas da área considerada de controle militar, serviram sim, pelo menos nestes momentos deprimentes do domingo passado, para que se estabelecesse ali a igualdade no tratamento desrespeitoso, desumano e arbitrário a que são submetidos e submetidas os moradores e moradoras das favelas do Rio de Janeiro, para ficar por aqui no nosso quintal.

O debate é muito mais profundo do que equivocadas atitudes tomadas por homens e mulheres que do alto de um "poder" que em suas mentes o elevam a níveis mais elevados do que realmente possuem, em relação aos cidadãos e cidadãs" comuns". Bons pais, amigos, mães, filhas, esposas, e que se travestem de identidade oposta ao vestirem a farda.

É como se víssemos "juízes" em série. Faço aqui referência ao personagem do Stallone no filme "O Juiz", de 1995, que em virtude da falência da "justiça e da lei", era em uma mesma figura, no caso dos "juízes", juiz, júri e algoz dos desafortunados suspeitos. A questão, que tem no antropólogo e cientista político e ex-coordenador da Área de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Eduardo Soares, um de seus expoentes, está na reforma profunda das polícias e em sua desmilitarização que consolida o cidadão com seu grande inimigo e mais ainda, nas camadas mais vulneráveis a sensação de que ali seu poder é quase divino, dispondo da vida com se dispõe de coisas que podem ser descartadas sem qualquer consequência.

A instituição que é composta por estes homens e mulheres, impregnada de racismo, onde a revista ou abordagem policial se dá em sua grande maioria com cidadãos e cidadãs negros e negras ou em pessoas não brancas, e de forma truculenta e desrespeitosa.

Bill de Blasio, prefeito de Nova Iorque, ao assumir seu cargo, decorridos 30 dias, decidiu discutir e acordar com a polícia de NY a diminuição do que por lá chamam de  stop-and-frisk, ou a nossa famosa já citada abordagem e revista, feita de forma truculenta e discriminatória, tendo por lá como alvo preferencial (cerca de 80% negros e latinos).

Assim, aqui como lá, elegem-se com base em critérios subjetivos a escolha dos alvos, e o mais perverso, os jovens, negros e das áreas mais vulneráveis são os preferenciais, somando-se a isso o fato de sermos um país extremamente racista nas relações reais do cotidiano, e há ainda a cultura de que ao criticar as ações das polícias o cidadão ou cidadã é seu inimigo.

É de muita urgência que se inicie uma pressão para a reformulação de nossas instituições, sem as quais não poderemos avançar por mais muito tempo. A sociedade está descontente ao extremo e sinto que isso se revelará nas urnas.

O subterrâneo está como um vulcão prestes a entrar em erupção. Vivemos um genocídio constatado por pesquisas e dados oficiais da população jovem e negra. Na verdade a população negra e não branca é a mais vitimizada em toda a sua constituição, logo isso é um caldeirão, uma panela de pressão que está quase explodindo, e as ruas são um sinal disso.

Sendo assim, já passamos da hora de rompermos com as práticas velhas e danosas ao extremo e avançarmos em novo projeto de sociedade brasileira. Hoje estamos iniciando a reunião dos países que compõem os Brics e momento mais oportuno não há para repensar e pesar os acontecimentos desde junho de 2013 para de fato avançarmos rumo ao novo momento deste país continente.

"A nossa luta é todo dia. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO e ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL, ao VOTO OBRIGATÓRIO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Consultora na ONG ASPLANDE.

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