Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Audiência Pública do PAC Rocinha: 30 moradores para falar por 200 mil

Jornal do BrasilDavison Coutinho*

Uma audiência pública para apresentação do PAC 2 Rocinha foi realizada nesta segunda-feira, no Centro do Rio de Janeiro. A audiência é um requisito para início da licitação das obras do projeto do PAC que prevê o investimento de R$ 1,6 bilhão na maior favela da América Latina.

O evento iniciou-se com apresentação dos projetos de obra pelo presidente da EMOP, Ícaro Moreno. Em seguida, a coordenadora Ruth Jurbeg apresentou os slides das intervenções e o professor e sanitarista Ernani Costa mostrou o estudo previsto para o saneamento básico na comunidade. Estiveram presentes alguns moradores e lideranças da Rocinha e São Conrado.

Poucas pessoas compareceram à audiência sobre o PAC 2 Rocinha
Poucas pessoas compareceram à audiência sobre o PAC 2 Rocinha

Então, após apresentar o evento, posso registrar aqui a indignação dos poucos participantes, moradores da Rocinha que tiveram a oportunidade de falar. Em primeiro lugar, a crítica geral foi da realização de uma audiência pública, que vai se tratar sobre o futuro da Rocinha, sendo realizada no Centro da Cidade, e não na favela, e ainda às 12h, o que inviabilizou a participação geral dos moradores, ou seja, eram menos de 30 moradores e lideranças para se tratar de uma favela maior que muitas cidades do Brasil, onde moram cerca de 200 mil pessoas.

O estudante Dennis Neves, idealizador da grande manifestação da Rocinha, criticou severamente a não conclusão do PAC 1 e os acordos não cumpridos pelo governador e pela equipe do PAC com os prazos previstos para entrega das obras. Dennis ainda criticou o atraso de 4 anos na entrega de uma creche, bem como a inauguração nas vésperas das eleições.

Os moradores, também, ficaram insatisfeitos com a quantidade de realocações de famílias que serão necessárias para as obras e para onde vão essas famílias e se serão assistidas dignamente, ou de forma errada como no PAC anterior. O grupo do Rocinha sem Fronteiras de lideranças da Rocinha criticou a atuação do PAC e reivindicou o saneamento como prioridade para a comunidade, e não o teleférico, que seria um elefante branco para a Rocinha.

Representantes do governo falaram sobre o PAC 2 Rocinha
Representantes do governo falaram sobre o PAC 2 Rocinha

Como conclusão, podemos realmente perceber que tal evento foi organizado de maneira errada, porque deveria ocorrer dentro da comunidade para uma participação maior dos moradores. Tal audiência também não representa os interesses da favela, já que o projeto já foi pronto, onde não cabem mais alterações dos moradores. O saneamento que tanto é solicitado não será atendido como fora requisitado, já que não será feito até nas residências, ou seja somente 30% de saneamento será realizado.

O que nos preocupa é para onde vão as quase 3 mil famílias que terão suas casas removidas, já que serão apenas 320 apartamentos. A coordenação do PAC informou que será feita uma compra assistida, mas nós sabemos a bagunça que foi o PAC 1 na hora de indenizar os moradores, com o valor que não estava de acordo com os preços de imóveis na Rocinha. Os moradores tiveram que comprar casas fora, ou em lugares menores dentro da comunidade. Além, dos subornos e corrupção que fez parte da negociação dos imóveis.

Enfim, fomos usados apenas para cumprir exigências de licitação. Nada será mudado ou acrescentado no projeto.

* Davison Coutinho, 24 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel emdesenho industrial pela PUC-Rio, Mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade.

Tags: coluna, comunidade, Coutinho, davison, pauta

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