Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Copa: torcida não grita porque alma do povo não está nos estádios

Jornal do BrasilMônica Francisco *

Ao ouvir em uma rádio de notícias que um famoso grupo musical está "ensinando"  a torcida brasileira para que ela não faça "feio" frente às outras torcidas, principalmente a do Chile, que está até agora na dianteira do ranking das torcidas mais animadas nesta Copa, fiquei pensando na capacidade que nós temos de encobrir as verdades ou consequências de maneira tão hábil e ao mesmo tempo tão cruel.

"Grito de guerra" não se ensina, se aprende no calor da emoção, no desejo da conquista, na entrega do coração ao time, equipe, ou qualquer outra ou outro objeto que desperte nossa paixão esportiva, ou espírito esportivo e de competição. Mas como ter despertado este espírito se há mais de um ano gritamos por mudanças profundas sem sermos ouvidos, ou melhor ouvidos e desdenhados em nossa indignação, criminalizados em nossa revolta e, por que não dizer, escarnecidos em nossas urgências mais básicas e estruturais.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Ou já esquecemos que há alguns dias um senhor morreu na porta de um hospital em Laranjeiras, dois adolescentes e um policial morreram no Alemão, tivemos a Cláudia, o DG, o Amarildo, o Elielson, os meninos de Manguinhos. Meu Deus, é pavoroso. Estelita, Favela do Metrô, meninos amarrados em postes, um momento político delicado no Rio de janeiro, "estupro corretivo". Mas é Copa, sim é Copa, mas sentimento verdadeiro se sente o cheiro de longe, e "forçação" de barra também.

É só lembrar do escárnio que foi a CPI dos Transportes, a chacina da Maré, que completa um ano, o aumento no efetivo militar controlando as favelas, só na mesma Maré, são 55 militares para cada morador(a). Cantar, só se for Racionais, pra extravasar a dor e angústia a que somos submetidos(as).

A questão é uma: O futebol no Brasil nunca mais será o mesmo depois da Copa da Fifa (embora já não o seja há um bom tempo, mas isso fica pra depois). Veja bem, a Copa é da Fifa e não do povo. Não será mais o mesmo, porque perdemos o que nos dava a "liga", a emoção, o calor de extravasar e expressar em um grito de guerra nosso desejo de ser o 12º jogador(a) em campo.

Nossa vocação para técnico, ainda que tenhamos dois "pés esquerdos", isso, se vocês leitores e leitoras lembrarem, há algumas semanas atrás foi alvo de grande inquietação e dezenas de elocubrações sobre o motivo pelo qual a seleção brasileira  e o seu  técnico, contrariando a tradição brasileira, não estavam sendo alvo de nenhuma crítica.

Tá aí, um campeonato que esqueceu de levar para os estádios o mais importante: a alma. Não, melhor dizendo, não esqueceu, deliberadamente resolveu suplantá-la para adequar-se ao papel de emergente e avançar no processo civilizatório globalizado e pressionado até as últimas consequências pelo capital desportivo e o das grandes corporações, e do processo de embranquecimento que nunca foi abandonado, no sentido de fazer "boa figura".

Porque alma não é cantar "sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" e ter vergonha de si mesmo em algumas situações e ser algoz de si mesmo em outras, como no caso dos mais de dez mil homicídios em 10 anos, como mostram os dados coletados pelo sociólogo Michel Misse em parceria com a OAB do Rio de Janeiro, ou a migração da violência para o interior, fazendo com que os números sejam palatáveis (para alguns) nas capitais e elevados a taxas preocupantes no interior delas, conforme mostra o Mapa da Violência 2014.

A alma ficou lá nos escombros do velho Maraca, lá nos escombros da favela do Metrô, Manguinhos, nas lágrimas das mães, na indignação que toma as ruas e sabemos que as ruas ainda vão tremer. Aí sim, a gente vê onde está alma do brasileiro.

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL, ao VOTO OBRIGATÓRIO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Consultora na ONG ASPLANDE.

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