Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Mosaico

Jornal do BrasilMônica Francisco *

Este país é muito interessante mesmo. Fazemos uma abertura de Copa, onde os jornalistas que têm acompanhando os ensaios e alguns integrantes  reportam que a maior riqueza do país a ser retratada será o seu povo. Daí comecei a pensar que somos estranhos mesmo, dizemos e queremos mostrar ao mundo nossa maior riqueza, mas quando temos a oportunidade de mostrá-la não o fazemos.

Digo isso lembrando-me do episódio que cercou o sorteio para as chaves da copa, onde um casal negro (Taís Araújo e Lázaro Ramos) foi substituído pelo casal ideal típico Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert. Houve a história de serem atores  e tal, mas os dois modelos também estão no vídeo e fazem parte da mesma emissora.

Passo rapidamente os olhos em uma revista televisiva da semana anterior e que circula aos domingos e me deparo com uma enquete feita por uma coluna da referida revista sobre um romance entre o protagonista de uma novela vivido por Murilo Benício  e a personagem da atriz Taís Araújo(de novo)  e vejo que 55% do público rejeita tal relação, ainda que torça pela esposa loira do protagonista ficar com o amante. Penso que se fosse o contrário...

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Em um seminário realizado na semana passada por ocasião do lançamento do livro da professora e pesquisadora da Uerj Lia Rocha, intitulado Uma favela "diferente das outras"?, onde disserta sobre silenciamento e ação coletiva em uma favela situada na zona sul do Rio de janeiro.

O tema do seminário," O problema da favela hoje" que recebeu dois dos grandes pesquisadores do tema favela há mais de três décadas, Lícia do Prado Valladares e Luiz Antônio Machado,  e mediado por Márcia Leite também professora e pesquisadora do tema na mesma universidade, fez com que se refletisse sob o olhar da academia a reedição da favela como problema.

Também participei do seminário e ao brincar sobre o problema da favela, disse que seu maior problema são os favelados. Ora, você leitor pode estar pensando ao ler esta coluna, o que pode ter em comum a abertura da Copa, a novela e seus atores/personagens, um seminário de cunho acadêmico e uma coluna que fala ou melhor que tem como pauta a favela?

Como o título deste artigo  sugere, o mosaico de assuntos se complementa e harmoniza nos dando um elemento importante de análise do que somos. Queremos mostrar nossa suposta maior riqueza e eu de fato acredito  e penso que nós, o povo brasileiro, somos a maior riqueza, mas também percebo que esse é nosso maior fracasso.

Como o povo brasileiro é em sua maioria que habita o Brasil real, machucado, desrespeitado e tratado de forma aviltante por quem habita o Brasil oficial. Se fala do povo brasileiro, de como é trabalhador, resiliente, como é pacato, mas ante a qualquer esboço de reação à opressão cotidiana, logo vemos que a maior "riqueza" do país é tratada como o maior problema do país.

É a maior "riqueza" do país que tomba exausta nos canaviais em trabalho análogo ao da escravidão, é a maio "riqueza" do país que agoniza horas na porta dos hospitais e postos médicos sem que nenhum ato de compaixão. Temos a coragem de tratar nossos índios de forma tão aviltante e execrável quanto os europeus do "descobrimento".

Sem contar a dificuldade que é ser negro e negra neste país e se constituir em "problema" perene. Sim porque se formos ampliar nossas lentes, são os negros e negras que dão corpo ao maior contingente de encarcerados, mortos de forma violenta, mortes maternas, fracasso escolar, são os que tem os índices salariais mais baixos e isso não se deve a razões biológicas(quero crer que superamos essa fase), embora tenha ouvido de uma cidadã que a maioria dos bandidos são negros(achei melhor não discutir, poderia estar em situação difícil agora e prezo a vida).

Pois bem, daí, se traduz toda essa negação, nas pesquisas mais irrelevantes das revistas televisivas, nos comentários mais inocentes e nas brincadeiras mais pueris. A maioria negra deste país se constituí inconscientemente para muitos em seu maior problema, embora eu tenha clareza de que vivemos em uma democracia racial.

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL, ao VOTO OBRIGATÓRIO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Consultora na ONG ASPLANDE.

Tags: coluna, Francisco, JB, monica, texto

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