Jornal do Brasil

Segunda-feira, 28 de Julho de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Uma criança nasce marginalizada? 

A justiça com as próprias mãos e a distorção social 

Jornal do BrasilDavison Coutinho *

Estamos vivendo em meio a muita violência em nossa cidade, aliás, em todo nosso país. Esse reflexo faz com seja cada vez mais comum o uso da justiça com as próprias mãos, que vem sendo compartilhada e apoiada por muitos brasileiros nas redes sociais. Muitas pessoas apoiando atos de violência desse gênero. Nestas postagens, muitas vezes, vemos fotos de menores amarrados em postes ou que foram linchados após tentarem cometer algum tipo de crime, na maioria de vezes cometendo furtos.

Essa prática vem se disseminando em todo país, e o que preocupa é que seja mais comum entre as futuras gerações. É necessário pensar que sociedade é essa em que estamos vivendo e que tipo de educação nossas crianças estão recebendo com esses exemplos de atrocidade. O que as pessoas fazem achando que é justiça, faz com que as vítimas passem a se igualar aos bandidos, e estes passam a ser vitimas. O último caso desse tipo de justiça é o linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, morta depois de um boato espalhado nas redes sociais, acusando-a de sequestro. 

Davison Coutinho
Davison Coutinho

A criança não nasce marginal, ninguém nasce marginal. O marginal é resultado da sociedade que nega à população os seus direitos a educação, saúde, comida e trabalho. Não acredito que as mães tenham ventres malditos de onde saem crianças ruins. É como se existissem crianças que nascem para serem doutores e outras que nasçam para ser bandidas. 

Outro erro comum é atribuir a marginalidade somente à pobreza. Existem muitos bandidos no asfalto muito mais perigosos que os pobres. Prova disso é a quantidade de políticos criminosos que fazem mal a toda sociedade, roubando das crianças o direito de um futuro digno e respeitoso.

Aquela criança, que chamamos de trombadinha, na maioria das vezes não teve oportunidade de ser alguém melhor. Pelo contrário, teve que fugir de sua casa porque era espancada, ou não tinha família, foi para as ruas passar fome e frio. Ninguém vive nas ruas porque quer. E nas ruas conheceram a droga como forma de ilusão para solução de seus problemas. E assim, se inicia a história de um moleque sujeito a cometer qualquer atrocidade. Afinal, quem o ensinou o que era certo ou errado? 

*Davison Coutinho, 24 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade, funcionário da PUC-Rio.

Tags: coluna, Coutinho, davison, JB, texto

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