Jornal do Brasil

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Por que temos que ser um alvo da violência policial?

Jornal do Brasil*Walmyr Junior

Diante deste questionamento, que diariamente passa pela cabeça dos moradores da favela, podemos encontrar um sentido para os diversos atos que chocaram a sociedade carioca nas ultimas semanas. Vimos que os moradores do Complexo do Alemão realizaram uma manifestação (28) em protesto contra a morte de  Arlinda Bezerra de Assis, de 72 anos. Arlinda, conhecida como Dona Dalva pelos moradores, voltava para casa na noite de domingo (27) na favela da Grota após um almoço de família. Diante do tiroteio, Dalva tentou proteger o seu sobrinho-neto, de 10 anos, e acabou sendo atingida por disparos na virilha e na barriga. 

Estamos encarando uma realidade presente, a polícia entra na favela e não está preocupada em saber quem está na sua frente em uma incursão nos becos e vielas, o PM só se preocupa em atirar em quem aparenta ser um alvo. Se for um ser humano ou não, o policial não se preocupa com que está na sua frente. Sou morador de favela e sei como é o comportamento dessa suposta força de segurança. O que importa é matar ou punir. Se for inocente morto, é fácil: só jogar a culpa no bandido da favela ou jogar na conta dos autos de resistências. 

O problema é que para a polícia, todo favelado é bandido ou é conivente ao tráfico de drogas. Nossa política de segurança não garante a sobrevivência do morador da comunidade, ao contrário, ele é um dos piores inimigos. É o policial que mata o irmão, o amigo de infância, o pai, a mãe, a tia, a avó e toda a rede de relacionamentos dos cidadãos de bem que moram na favela.  A política de segurança está defasada e quem sofre como isso  é quem tem que ver o militar que teoricamente traria a segurança pública para a favela ser o assassino da vez. 

Voltando ao questionamento do título deste artigo, quero me deter à indignação do morador da favela. Este cidadão, que está cansado de sofrer com essa prática, encontrou uma maneira de externar o seu problema na favela. Todas as vezes que um morador da favela morre com as incursões policiais, a população está indo para rua e incendiando ônibus de concessionárias prestadoras de serviço de transporte público. 

O prejuízo para os empresários já passam de R$ 10 milhões. Quem paga a conta são as concessionárias e não o Estado, já que não há seguro para cobrir incêndios criminosos. Já se aproxima ao número de 50 ônibus destruídos por incêndios somente em 2014 no Estado do Rio, cada veículo novo tem custo estimado de R$ 350 mil. 

Alguns questionamentos ficam em minha cabeça diante da quantidade de pessoas que morrem diariamente com a violência policial. A cobertura midiática sobre os ônibus queimados é explicita, pois quem perde com isso são os grandes empresários das concessionárias de transporte. Já o extermínio da população pobre e negra da favela não mexe no bolso de ninguém. Pelo contrário, facilita que o Estado sustente esse  apartheid social que vemos em nossas cidades.

É alarmante o índice de homicídios favelas e periferias brasileiras. Não é só no Rio de Janeiro que a truculência policial viola os Direitos humanos. Segundo os dados recém-publicados pela AIB (Anistia Internacional Brasil), a violência vista no Rio também acontece no restante do país: "O Brasil apresenta uma das taxas de homicídios mais altas do mundo, com registro anual de 50 mil mortes. Entre os jovens, a proporção de mortes é duas vezes maior, se comparada com a idade adulta. E entre os jovens brasileiros que morrem 78% são negros".

Sabemos que polícia brasileira é a que mais mata no mundo. Com isso, me pergunto mais quantos ônibus serão queimados para denunciar os abusos da violência policial na favela? Quantas pessoas as UPPs terão que matar para reconhecermos que ela fracassou enquanto política de segurança? Quantas vidas ainda serão ceifadas na favela por sermos apenas um mero alvo?

* Walmyr Júnior Integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro, assim como da equipe da Pastoral Universitária Anchieta da PUC-Rio. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

Tags: Artigo, comunidade, JB, pauta, walmyr

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