Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Não nos conformemos com tantas mortes e tanto sangue inocente derramado

Jornal do BrasilMônica Francisco *

O barulho das correntes e das chibatas não param de soar.Elas foram aposentadas oficialmente naquele Maio de 1888, mas insistem em nos prender e açoitar ainda hoje. Há uma infame convivência com a morte, preconceito e impunidade quando se trata de nós, pessoas portadoras do mal da cor.

Três tiros em uma mãe de família, quase um mês e meio depois esta tragédia no Cantagalo e Pavãozinho, com a morte de dois meninos, sim meninos, com toda uma vida pela frente. Não sei seus antecedentes, mas a vida, nosso maior tesouro, isso devia ser de fato inviolável. 

Mas no nosso caso não interessa o endereço, profissão, grau de exposição na sociedade ou outras qualidades a mais, se for preto já era, a mulher ou o homem está marcado(a).

Sim, porque tudo dá para se esconder, agora a cor...

Vão te matar, aviltar teu corpo, e te criminalizar, profanar tua memória em grande escala, para depois se retratarem em uma coluna do tamanho 3x4.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Nestes tristes trópicos é assim. Mesmo em um país cuja mestiçagem corre solta e vem de longe, periga da mulher ser presa porque a cria é mais clara no tom da sua pele, isso com arrasto e direito a ser truculentamente abordada pela polícia, somente com a suspeita de alguém que te ache com “cara de gente má”, como é isso minha gente.

 Esta semana não vai ser esquecida. Ouvindo o depoimento de uma amiga e assistindo ao depoimento de outra sobre o “olhar dos moradores do Cantagalo e Pavão/Pavãozinho”, nunca visto em outra situação. Olhar de quem deu um basta. Dizem que nunca se sabe o que vai dar quando alguém represa sentimentos e em dado momento de crise eles vem à tona.

E foi isso o que vimos. Que tudo se esclareça, que a verdade seja nos apresentada e que não nos conformemos com tantas mortes e tanto sangue inocente derramado dessa forma. Não é natural que por aqui se perca tantas vidas, não pode continuar sendo.

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Consultora na ONG Asplande.

Tags: coluna, comunidade, Francisco, monica, pauta

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