Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Os invisíveis sociais, porém humanos: a segunda categoria de nossa sociedade

Jornal do BrasilDavison Coutinho*

"Aos poderosos eu lanço um desafio

Viver um dia de pobre e o pobre um dia de rei

Mas eu só peço a esse moço, por favor,

Antes de bater na cara, 

respeite o trabalhador"

Nosso país é representado pelas desigualdades sociais. A triste verdade é que muitos de nossos brasileiros são inexistentes, são tratados como números. O preconceito social é tão agressivo que faz simplesmente a sociedade apagar pessoas do seu campo de visão.

Davison Coutinho
Davison Coutinho

É claro que não podemos deixar impune o que aconteceu com Douglas Rafael da Silva, mais conhecido como "D.G", dançarino de um programa de uma grande emissora de televisão do Brasil. Triste e revoltante é perceber que quando se trata de pessoas com reconhecimento ou com alguma ligação com a elite brasileira, a cobrança e a busca pela solução do caso é de maior importância do que quando as vítimas são os invisíveis de nossa sociedade.

Ainda não ouvi falar do cidadão que foi morto no protesto pela morte do jovem Douglas. Pelo que parece teve uma morte heroica, perdeu sua vida lutando em protesto pela morte de um companheiro e pela melhoria de sua comunidade. Não merecia esse rapaz igual tratamento que todos estão dando ao caso de D.G? Não sei se ele tinha família, quantos filhos terá deixado? E sua mãe, será que tinha? , será que choram a morte do rapaz, será que merecia morrer de tal forma, ou será só mais um invisível? 

Acontece é que quando se trata de mais um favelado, negro, pobre o caso não tem visibilidade, vira número. Aliás, a frase é sempre "era só mais um traficante". No entanto, estamos falando de vidas, sangue igual a de qualquer ser humano. Na Rocinha, houve negligência e demora em resolver o caso Amarildo, que só foi resolvido por muita pressão da população nas manifestações. A morte de Edilson Rodrigues da Silva, morto da porta de casa na Rua 3 quando saia para fumar, não rendeu mais que um dia nas páginas de jornais. A mãe de família Claudia Silva também não teve quem lutasse por sua morte. 

O programa em que DG trabalhava é mais um da linha dos comerciais do governo que vendem a favela como pitoresca e exótica, onde todo mundo dança funk e curte samba, usa roupa curta, toma banho na laje e solta pipa. Estereótipos da favela, onde todos são felizes, assim como mostrou a última novela da mesma emissora que falou sobre o Alemão. Ninguém quer mostrar a dura realidade desses lugares completamente abandonados pelo poder público. 

O governador quer receber a família, o secretário de segurança já prometeu que a investigação será rigorosa. E aos demais mortos? Enterramos seus corpos e suas lembranças sem ao menos o consolo de que a justiça foi feita? 

#paz

"Pois a metralhadora que ainda interrompe

Ameaça jovem, velho, criança, mulher e homem

O problema que era deles, passa a ser problema meu

Ter que aturar uns caras que nem sabem quem sou eu"

Cidinho e doca - Meus Direitos 

*Davison Coutinho, 24 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade, funcionário da PUC-Rio.

Tags: comunidade, Coutinho, davison, JB, pauta

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