Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

A mágica das letras e o terrorismo contra a educação

Jornal do BrasilMônica Francisco *

Hoje pensei muito em sobre o que escrever, isto porque geralmente na correria da vida e dos fatos, as pautas vão se apresentando e se oferecendo para serem contadas, divulgadas, expostas e consumidas. Não que seja fácil, pelo contrário, é uma briga interna e desespero sem fim ter a responsabilidade de escrever semanalmente, sabendo que suas palavras ficarão eternamente à disposição de qualquer mortal no globo.

Não que eu me arvore de pretensões de grande escrita, mas é meio apavorante saber que você pode ser digerido de forma errada por quem te lê, ou escrever um monte de besteiras e influenciar de forma errônea um pensamento ou atitude. Até porque para mim as letras são mágicas.

Este ato tão cotidiano de escrever que para mim e outras tantas pessoas no mundo é quase que impensado, para muitos ainda é um mundo desconhecido. Saber que ainda há pessoas e muitas delas tão perto de nós e que ainda não pode usufruir de ação tão mágica quanto vital que é o ato de escrever, grafar com letras suas idéias mais pueris, me faz ter vontade de chorar.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Perceber uma pessoa tão perto de você na era da internet e dos grandes avanços tecnológicos e cibernéticos é chegar à conclusão que a atitude dos governos em relação à educação neste país que é onde vivo é, para mim, quase um ato terrorista. Sim, é tirar a chance de viver de inocentes. Sim, viver. Porque escrever, ler, se relacionar com o mundo através da palavra é viver.

Quando uma criancinha diz que passa o dia todo em uma escola pública de tempo integral desenhando e queria aprender mais, para mim, isso é terrorismo. Estão matando, diminuindo as chances de vida. Para mim é isso, de alguém que vai perdendo o viço, porque a gente vê no olhar e no discurso destas pessoas, que bela seriam suas  vidas se  pudessem ler e escrever. Talvez nem fosse, mas não dá pra tirar a ilusão de quem já tem tão pouco, não é verdade?

Eu sei que muitas pessoas vivem, e são até alegrinhas e que nunca aprenderam as letras. Mas eu penso que elas seriam melhores com elas. Sei lá, hoje eu me lembrei, talvez pelo fato de ter discutido na disciplina de Licenciatura este assunto tão sério, talvez a tônica do texto me provocando, mas a lembrança da minha vida escolar, do esforço de minha mãe indo de madrugada para a fila da escola para garantir minha vaga, da primeira experiência de adentrar os portões da escola, de me deslumbrar com a biblioteca.

Como isso foi vital no que eu sou. Lembro do deslumbramento nas aulas de História, da professora utilizando seu belo colar cheios de elos para exemplificar o encadeamento dos fatos, das aulas de Arte Cênicas, Artes Plásticas, de Geografia e Português, meu lindo, perverso e amado Português, as aulas de Música, vou parar pra não chorar mais e dar nó nas idéias.

 De conhecer na prática o conceito descrito pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, sobre os capitais sociais que acumulamos ao longo de nossas relações sociais  de acordo com a  classe à qual pertencemos e que vão de alguma forma incidir no processo educacional e a distinção no universo escolar, pelas mãos de uma diretora que nos disse a mim e algumas coleguinhas, que implicavam com uma outra coleguinha, aquelas besteiras de meninas de 10 anos por causa de "garotos mais bonitos da escola", que nós não tínhamos ideia de quem ela era, filha de diplomata, e que nós nunca colocaríamos a ponta do dedão do pé nos lugares onde ela entrava.

Acho que nem nos demos conta daquelas palavras na hora, mas elas estão aqui, apresentadas a vocês por alguma razão. Bem, tudo isso para dizer que hoje eu, mais do que ontem, penso que as questões ligadas à educação tem mesmo de mudar. Não dá para assistirmos notícias como as de Goiás, de que policiais dirigem escolas estaduais. Isso é o fim de qualquer racionalidade para mim. Educação é caso de amor e não de polícia, fica a dica!

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL, ao VOTO OBRIGATÓRIO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e aluna da Licenciatura em Ciências Sociais pela UERJ.

Tags: Artigo, comunidade, monica, pauta, Rio

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