Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Setembro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Força Nacional na Maré é a ditadura do Governo do Estado

Jornal do BrasilWalmyr Júnior*

O governo do Estado do Rio de Janeiro tomou a iniciativa de traçar um “plano de emergência” para responder a onda de violência que acontece na Cidade. A justificativa está ligada à confrontos que ocorreram em três áreas com Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) onde um comandante de uma das UPPs atacadas e um policial ficaram feridos.

Tal justificativa só corrobora na estratégia de minimização do estrago político e social que o governo do senhor Sérgio Cabral no estado do Rio de Janeiro vem sustentando. A imagem refletida nessa iniciativa tem por finalidade trazer um novo ator social para a cidade. Este sujeito, que chega mais uma vez para reconfigurar a política de segurança pública, não possui uma farda azul e não mata com tanta frequência.

Um teatro está montado. A ópera orquestrada pela secretaria de segurança do estado programa uma colisão nacional para impedir a suposta ‘guerra civil’ que está instalada nas favelas do Rio de Janeiro. Trazendo as Forças Nacionais de Segurança para a favela, o governador tira a polícia militar de cena e altera as relações de conflito no território do morador da comunidade.

Vejamos bem. Nas favelas da Cidade, os bandidos e os policiais militares entram em confronto quase diariamente. Nos 85 dias do ano, já passaram o número de 60 mortes por intervenções militares nas favelas do Rio de Janeiro, sem contar os feridos. Não há como não questionar esse modelo de segurança publica que está vigente no Rio de janeiro. Na favela o morador não tem direitos de ter direitos, sua liberdade é condicionada no revolve da polícia, sua mobilidade depende do ter ou não incursão policial, sua dignidade é comprometida quando sofre abordagem e revista de uma tropa policial.

Na maré foi firmado um compromisso entre as 16 associações de moradores das comunidades, em parceria com algumas instituições que atuam nas favelas, no qual tem por finalidade discutir as intervenções da polícia e também se pensar em qual modelo de segurança pública os moradores esperam do Estado. O pacto foi violado, a UPP foi adiada, o estado de sítio é instaurado e a força nacional de segurança vai ocupar as favelas da Maré.

Como morador que sou, acredito estar mais sensível ao fazer a leitura do ponto de vista de quem mora, de quem trabalha, de quem estuda e de quem vive na favela. Os tiroteios, a truculência, a imoralidade, a ausência de respeito, os xingamentos e ofensas sofridas diariamente por causa da péssima abordagem da polícia militar não vai acabar com a implementação da força de segurança nacional, até porque a vinda da UPP só foi adiada.

Pergunto-me se a nossa liberdade ainda vai estar condicionada ao nos relacionarmos com outro tipo de aparato militar nesse tempo de ‘espera’ da UPP? O comportamento dos militares que vão chegar à maré possibilita que tenhamos ao menos uma sensação de segurança como os moradores da zona sul possui? Sabemos que o tratamento da PM é condicionado à cor e classe social de quem ela aborda. Com isso quero imaginar que os militares que vão chegar sejam diferentes do que estamos acostumados em ver, porque senão teremos até toque de recolher nesse programa de segurança do senhor Sérgio Cabral.

Em reunião, o governador Sergio Cabral detalhou para a presidenta Dilma Rousseff a situação do estado após os ataques nas favelas pacificadas. A expectativa é que nessas conversas, queele teve, tenha também surgido no assunto que além de segurança precisamos de saúde, educação, saneamento básico, mobilidade urbana, cultura e tantos outros direitos que estão sendo negados diariamente para a população do estado. Os detalhes de quantos homens serão deslocados, quanto tempo vão permanecer no estado e como vão ser distribuídos, provavelmente serão anunciados pelo governador, mas o número de criação de escolas, creches, hospitais, programas de cultura, esporte e lazer nunca serão revelados.

* Walmyr Júnior Integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ. 

Tags: básico, cultura, educação, mobilidade, precisamos, saneamento, SAÚDE, Urbana

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