Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Acham que quem mora na comunidade é bandido

Tratam a gente como se fôssemos uma carne descartável

Jornal do BrasilDavison Coutinho*

“Acham que quem mora na comunidade é bandido. Tratam a gente como se fôssemos uma carne descartável”. Esse foi o desabafo de revolta da irmã de Claudia Silva Ferreira, ou “Cacau” como era conhecida no morro da Congonha, 38 anos e uma história de lutas pela sobrevivência dos seus 4 filhos, com um fim trágico, marcado pela crueldade e falta de respeito dos policiais militares.

Uma mãe, auxiliar de serviços gerais, trabalhadora, indo comprar o pão para família, foi atingida por mais uma ação catastrófica da polícia militar, mais uma mulher, negra e pobre, vítima da violência que recrudesce nas favelas do Rio de Janeiro. Cacau foi vítima do preconceito da sociedade em considerar que todo favelado e preto é bandido e que para transformar favela só precisa de tiro e tapa na cara. A culpa dessa situação vem de cima pra baixo, vem da forma com que o governo vem tratando as favelas, a prova disso é a afirmação do nosso governador: “Favela é fábrica de marginais”.

Tão revoltante e triste foi ver essa cena, ver uma mãe que dedicou a vida a seus filhos, que trabalhava e morava na favela enfrentando todas as dificuldades de se viver em um lugar abandonado pelo poder público e ladeado pela violência, com uma vida marcada pela simplicidade e pela falta de recursos, funcionária de um hospital, uma cidadã tendo seu corpo arrastado, como não se faz nem mesmo com um animal.

A vontade é de chorar, não consigo me colocar no lugar desses filhos vendo e vivendo um momento tão triste e ao mesmo tempo revoltante. Claudia, nem mesmo depois de atingida violentamente teve direito ao respeito e memória de sua morte e de seu corpo. Uma cena muito triste que revela que genocídio continua fazendo parte de nossa sociedade.

A Claudia, desejo que tenha uma vida de paz, melhor que a que teve na terra, que possa ser recebida com muita luz no caminho da eternidade, e à família peço a Deus o conforto e força para superar esse momento tão difícil.

Em nome das favelas de nossa cidade, eu peço PAZ e JUSTIÇA!

*Davison Coutinho, 24 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade, funcionário da PUC-Rio. 

Tags: as dificuldades, e morava, enfrentando, na favela, todas, trabalhava

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