Jornal do Brasil

Segunda-feira, 28 de Julho de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

O recrudescimento da violência

Jornal do BrasilDavison Coutinho*

Estamos vivendo uma verdadeira guerra nas favelas da cidade do Rio de Janeiro, a cada dia que passa, sabemos de noticias tristes, como a morte violenta de uma criança, as várias mortes de moradores por bala perdida e até mesmo o grande número de policiais mortos em confronto. Quantas famílias estão chorando e tendo que encarar uma grande dificuldade de continuar a vida sem seus parentes queridos, quantos filhos que serão criados sem seus pais?

Essa violência tem se intensificado cada vez mais e já não sabemos mais como controla-la, está cada vez mais difícil e perigoso conviver nas favelas “pacificadas”, o risco é durante todo o dia e a todo e qualquer momento somos surpreendidos com tiroteios que são frequentes e em qualquer horário.

Quando foi noticiada pelo Governo do Estado a criação das UPPS, as maiorias dos moradores de favela sonharam com a instalação de uma unidade em sua comunidade, afinal quem não queria a paz. A Rocinha, por exemplo, recebeu de braços abertos à chegada da pacificação. Os policias foram aplaudidos, e o sonho dos milhares de moradores era de uma vida liberta e de paz, eram os direto básicos de todo cidadão que se aproximavam de todas aquelas vidas.

Os moradores não eram contra a pacificação, pelo contrário, receberam com alegria, pois, acreditavam que a transformação social iria acompanha a presença de tantos policiais. Pois bem, hoje a situação já não é a mesma, basta perguntar a qualquer morador que ainsatisfação será quase que majoritária.

A polícia entrou no morro com todo respeito do morador, mas a PACIFICAÇÃO FALHOU. O governo falhou, foram prometidas diversas ações na comunidade que antes não existia, poisse alegava apresença do tráfico. A vida na favela só piorou, e o lixo continua fazendo parte de nosso cenário, o saneamento básico ainda não existe, o PAC deixou de lado diversas obras importantes para infraestrutura local, a creche para as crianças não foi entregue. Os problemas sociais só aumentam, os jovens continuam ociosos sem oportunidades, os moradores continuam convivendo em meio a esgotos e lixos, a unidade de saúde UPA não dar conta de atender as demandas. E o pior, a comunidade perdeu a confiança no governo e o Amarildo foi cruelmente assassinado.

Então, para que e para quem a pacificação foi positiva?

Não adianta só colocar policia pra tomar conta da favela, não se trata de animais sendo vigiados por guardas dentro de uma jaula. Estamos falando de ser humano que precisa de conhecimento, educação, oportunidade, saneamento básico, escolas, serviços públicos de qualidade, remoção de lixos.  Infelizmente, estamos perdendo uma grande parcela de jovens com potenciais diversos, que poderiam ser aproveitados e poderiam ter um futuro promissor. Diversas Obras de infraestrutura são necessárias, e melhorias são bem-vindas, mas é preciso ir mais além, é preciso de uma transformação verdadeira.

Não se faz paz apenas reprimindo o povo instalando policias pacificadoras, o projeto precisa ir muito mais além, é preciso de verdade e transparência, é necessário que a favela passe a fazer parte integrante da cidade e seja enxergada e tratada com respeito. Não somos contra o policial, que muitas vezes, perde a vida se dedicando ao trabalho, não somos contra o traficante que muitas vezes entrou nessa vida por não ter qualquer oportunidade de sobrevivência.

Somos contra o sistema, somos todos vitimas da politicagem que se aproveita de nossas fragilidades e impotências e nos usam para desfrutar do nosso dinheiro,enxergam os nossos problemas com muito desprezo, afinal, não moram em becos e vielas, não usam transporte público, não sofrem com a quantidade de balas perdidas, dificilmente perdem seus familiares vitimas de violência, não sobem e descem centenas de escadas, não enfrentam filas e sorteios para estudar e não dormem com a incerteza de uma noite de paz.

*Davison Coutinho, 24 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade, funcionário da PUC-Rio. 

Tags: entrou, estudar, não, oportunidade, sofrem, transparência, tratada

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