Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

A Comlurb não vai chegar na Maré?

Jornal do BrasilWalmyr Júnior*

O processo de retomada das atividades da Comlurb está em pleno vapor, é uma pena que o processo de retirada do lixo dentro do complexo da maré seja mais lento do que de outras áreas da Cidade. A grande pergunta, que óbvio já tem em si a resposta, é o porquê que a Zona Sul já está limpa e a favela ainda está suja.

Acredito que todas e todos os funcionários da Comlurb tiveram um papel político e social de destacada importância no atual cenário em que vivemos. Uma classe que mesmo sem ter o empoderamento do seu poder político soube muito bem utilizar a ferramenta de trabalho para reivindicar melhores condições para o exercício de suas funções.

Marcus Ianoni, professor do departamento de ciências políticas da Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutor em ciência social,em entrevista para o Jornal do Brasil trouxe uma reflexão a cerca do aspecto a ser considerado onde vemos uma democracia no Brasil onde há o direito a greve:

"Trata-se da greve de uma categoria que desempenha uma função muito importante para a cidade, mas que, tradicionalmente, é submetida às mesmas condições de exploração que outras categorias de serviços domésticos e braçais são submetidas, em função da desvalorização desse tipo de trabalho, que remonta à condição de escravidão. Ou seja, trata-se de uma greve socialmente importante para superar uma histórica situação de injustiça nas relações de trabalho"

Ianoni aborda um ponto que é de extrema importância para falarmos do problema da Maré: a submissão. Enquanto o interesse de manter o cartão postal da cidade limpo, os Garis são obrigados a saírem de seus postos, abandonem suas tarefas da rotina diária e se concentram na limpeza da zona sul. Estes trabalhadores, que em sua maioria são moradores da favela, não podem exercer a limpeza da sua própria comunidade, pois tem a rua dos ricos para limpar primeiro.

Na Maré as pilhas de lixo corroboram com o problema diário da calamidade pública e revelam ainda mais o descaso do poder público nas favelas. Ratos, baratas, insetos de todo o tipo, e um odor horrível estão fazendo parte do cenário de muitas ruas e vielas que temos que passar. Chorume, que polui o lençol freático da Baía de Guanabara, resíduos de fezes e comidas que estão em putrefação a quase 10 dias, aumentam os riscos de doenças e contaminação dos moradores.

Ianoni abordou nessa entrevista que esses explorados, funcionários dos ‘serviços desvalorizados’, tiveram um importante papel social, por hora fico a pensar se a greve não poderia continuar só na área de assistência territorial da zona sul, que ai o impacto da greve surtiria mais efeitos e repercussões. Quem sabe se o governador do Estado não iria ficar satisfeito em ter uma mudança paisagística e insalubre no seu quarteirão como estamos vivendo diariamente na favela?

Pode ser utópico, mas acredito que as mudanças sociais na favela podem acontecer. Se a greve que aconteceu na Comlurb se repetir durante outros mega-eventos, como a Copa e as Olimpíadas ou em outros carnavais, poderemos ter uma maior preocupação com essa classe trabalhadora. Tendo isso como inspiração essa Classe trabalhadora poderá se empoderar do seu real papel e mostrar que à muito tempo vem limpando o terreno dos outros enquanto o seu está abandonado pelos nossos pseudos-governantes.

Ficamos na expectativa para ver o caminhão da Comlurb retirando o lixo o quanto antes na nossa comunidade. Afinal ainda somos cidadãos e pagamos em dia os altos impostos que nos são cobrados através dos serviços de péssima qualidade que tanto o Governo quanto a Prefeitura nos oferece.

* Walmyr Júnior Integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ. 

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