Jornal do Brasil

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Sendo mulher negra, como comemorar?

Jornal do BrasilMônica Francisco*

Eu gostaria muito de escrever coisas bonitas em relação ao dia Internacional da Mulher. Não que não haja. Há coisas bonitas sim, como as conquistas cada vez maiores obtidas por nós todas enquanto categoria, principalmente em relação ao trabalho, à sexualidade, maternidade, enfim, na vida em sociedade.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Até aí, tudo estaria muito bem, não fosse por uma questão: a misoginia em níveis cavalares quando se trata da tez negra. A suposta rejeição à moça que participa da vinheta de carnaval da Globo é mais um dos exemplos desta “hipermisoginia” com um ingrediente devastador, que é o racismo. Para as mulheres negras, ele traz um peso muito maior.

Não são poucos os relatos dos maus tratos sofridos por mulheres negras nos ambulatórios e unidades de saúde. No parto então, uma tragédia. A crença de que a população negra é mais resistente à dor, faz com que estas mulheres sofram de forma mais acentuada todas as suas dores.

A senhora agredida e socada por um segurança das Lojas Americanas em Nova Iguaçu, a empregada xingada pela patroa e que se cala pra alimentar seus filhos, ou pra ter onde dormir e comer, ainda existe, não se assustem. A menina negra explorada para ser babá, sem pudores, porque se estivesse em outro lugar poderia estar fazendo coisa errada – melhor trabalhando –, e cuidar de criança nem é tão pesado assim. Afinal, as meninas de hoje em dia não são como as de antigamente não é mesmo?

Não é raro para nós mesmas, mulheres negras deste país e para vocês que me leem neste instante, lembrar de casos presenciados ou ouvidos, de pessoas próximas. Minha amiga, teve sua filha prejudicada para sempre, com graves problemas neurológicos e consequentemente motores e cognitivos, por conta de uma demora no atendimento, pois foi deixada em uma sala que ela denominou de "pré-parto" à época, cerca de 19 anos atrás e orientada a não gritar e ficar quietinha, pois não estava na hora e não precisava ficar chamando a todo instante.

Ela ficou sozinha e sozinha sua filha nasceu na tal sala e a criança ficou com sequelas irreparáveis. Tudo bem, pode acontecer com qualquer um, mas neste caso, com mulheres negras, em um país onde afirmam não existir racismo, ele se desdenha cada vez mais cruel. Aos homens, a bala do Estado se encarrega da limpeza, às mulheres negras a morte chega de outra forma, silenciosa, mas não menos devastadora.

É a rejeição nos postos de trabalho, nos consultórios. Pergunte a uma mulher negra agora aí ao seu lado, quantas vezes ela foi tocada por um médico ao se consultar. Não me assusta a propaganda da loja de departamento trouxer uma silhueta negra de mulher atrás da mulher branca bem focada, sendo vestida pela negra como as mucamas faziam na vigência da escravidão. Não me choca. Me enoja e me encoraja ao mesmo tempo, acho que até me entristece.

Mas me faz crer que cada vez mais a mulher negra brasileira, aos poucos, mas com mais frequência vem se insurgindo contra as menções ao "cheiro de neguinha", " cara de bandido e feia", "mulata tipo exportação", "não se adequa ao perfil da loja", "é quase da família", logo não precisa de direitos trabalhistas, e vai se apropriando de sua história e sua posição como importante e fundamental em nossa sociedade.

Sigamos na luta, nós todas!

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO e à REMOÇÃO!"

*Mônica Francisco é representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e aluna da Licenciatura em Ciências Sociais pela UERJ. 

Tags: brasileira, história, mulher, perfil, Racismo, Sociedade

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