Jornal do Brasil

Quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Devemos nos importar com a greve dos garis

Jornal do BrasilMônica Francisco*

Os tempos são outros por estas terras brasileiras e cariocas. Até um tempo atrás, neste período, estaríamos assistindo a comentários inúmeros relacionados ao espetáculo do carnaval multifacetado de nosso país, sobre as rainhas mais clicadas, os corpos mais ou menos sarados, a escola com mais possibilidades, os blocos mais animados e que arrastaram mais gente, assistindo ao "bloco da limpeza" sambando, alegre, fechando o carnaval, “do alto de suas vassouras”, parafraseando certo apresentador.

Mas os ventos de junho, impulsionados pela brisa da primavera árabe, ainda continuam soprando por aqui – graças a Deus –. Este mês marca duas situações envolvendo a categoria, que por sinal é uma das mais competentes que temos. A primeira, a notícia da vitória na justiça, da ação movida por um dos garis que participaram da vinheta de final de ano da TV Bandeirantes, também condenada junto com o apresentador do telejornal da emissora, Bóris Casoy.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Segundo a revista Veja, o desembargador Salles Rossi, da 8ª Câmara de Direito Privado concedeu ao gari uma indenização de R$ 21 mil por danos morais. A condenação do apresentador e da emissora foi consequência do comentário do jornalista sobre os garis serem a mais baixa categoria na escala do trabalho, e ainda estarem felizes por isso e desejarem o mesmo aos telespectadores. Frase dita, quando o apresentador achava que seus microfones estavam desligados.

Passados cinco anos desde o episódio, sem que fosse apresentada nenhuma manifestação oficial sobre a injúria sofrida por toda uma categoria, os trabalhadores se mobilizam, tendo o apoio de toda a população, apesar dos transtornos causados pelo acúmulo de lixo e o mau cheiro desprendido pelas pilhas que se multiplicam pela cidade.

A atual paralisação dos trabalhadores da limpeza urbana. Talvez, seja a evidência mais clara de que muita coisa está fora da ordem na gestão desta aniversariante quatrocentona. Não podemos não apoiar a luta de nossos irmãos garis. É justa, oportuna, e mais do que necessária.

Lixo se acumula no Borel
Lixo se acumula no Borel

O interessante, é que sempre se fala em punição, nunca em diálogo de verdade, com respeito, olho no olho, franqueza. Sabemos que é muito ruim ver nossa cidade assim, mas temos a vocação, já disse aqui e repito, de nos incomodarmos com o sofá, mas a real causa do problema ou da crise é sempre deixado para depois, até que o "caldo" seja entornado e aí, um tal de “que transtorno” pra cá, “que transtorno” pra lá.

Todo respeito aos trabalhadores e às trabalhadoras da limpeza urbana, aos companheiros e às companheiras demitidos/as, que os/as que permanecem lutem para reverter esta situação, e que a sociedade se una a mais uma categoria massacrada pelos que ainda não entenderam que todos são importantes na condução de nossa sociedade, seja qual for o lugar que ocupem.

A greve chegou ao Borel também. 

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e aluna da Licenciatura em Ciências Sociais pela UERJ.

Tags: Artigo, comunidade, monica, pauta, Rio

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