Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Setembro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Sentindo na pele

Jornal do BrasilMônica Francisco*

Há muito tempo não ficava até tarde fora de casa na comunidade.Esta semana tive duas importantes experiências que traduzo em artigo e divido com vocês, graças à esta oportunidade bacana de escrever arduamente dois artigos por semana, mas com prazer.

Ao voltar de um encontro com amigas,acompanhada por  uma delas que também mora no Borel,resolvi tomar uma água tônica e me sentar  em um banco na ladeira que dá acesso à minha casa, para dar continuidade á conversa com a amiga.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Em um outro banco, uma família,com crianças e outras pessoas que conversavam, logo foram embora.Ficamos só nós, conversando, naquela noite quente, e com uma iluminação precária, a luz da lua sobressaía, criando um ambiente muito agradável.Alguns minutos depois, uma viatura policial pára bem em frente à ladeira e fica nos observando.Achamos estranho mas resolvemos continuar a prosa.

Em seguida um grupo de policiais passa e nos olha, com olhar desconfiado.Não ligamos, achamos que a viatura os estava auxiliando no exercício de suas tarefas, por isso parou ali.Que nada, eles foram , voltaram, e quando foram de novo, decidimos sair, frustrando nossa ilusão de que estávamos livres para ficar papeando até o outro dia se fora necessário.Aí nossa conversa mudou, e seguimos falando do que de fato não somos para este Estado, cidadãs.

Minha amiga ficou com muita raiva, se sentindo a mais diminuída das pessoas, sem direito de "nada", só de ficar quieta quando tem seus direitos violados e sair rapidinho do lugar suspeito mal iluminado,o que é quase toda a comunidade, porque vai que acontece alguma coisa, até agente provar bastante também, e bem lá no fundo eu já estava preparada pra "dura", só que não havia no grupo policial feminina, embora acho que isso não se colocaria como entrave caso quisessem nos abordar de fato, ao invés de ficar nos olhando.

Na segunda experiência, em conversa com mais duas amigas em separado, já que não temos muita oportunidade de dispor de tempo para conversar à vontade, pude ver a corrosão de parte da juventude da favela, pelo ácido da nossa indiferença como sociedade.Quanta desilusão, quanta ausência.Lembrei de trechos da música "Hoje" de 1969, de Taiguara, onde ele diz," eu não queria a juventude assim perdida, eu não queria andar morrendo pela vida" e " hoje eu desespero e abraço tua ausência".

Eu sei, muita gente gostaria que eu me ativesse na corrida do último final de semana patrocinada pelo estado, na festa para as crianças, no evento da igreja, nos projetos pontuais, é, eu também queria, mas não posso.

Pude sentir na pele o que os jovens da favela onde vivo, e pela minha experiência e fatos mais do recorrentes envolvendo esse perfil de juventude, me abalizam à dizer que de outras favelas e áreas periféricas também de igual maneira.Não que eu não soubesse, mas é cruel e desumano demais, fingir que temos algo além de uma ocupação militar destes espaços. penso seriamente que se não dermos um jeito de achar caminho para além disso, estaremos falidos como humanidade logo logo.

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO e à REMOÇÃO!"

*Mônica Francisco é representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e aluna da Licenciatura em Ciências Sociais pela UERJ. 

Tags: amigas, conversa, desilusão, evento, fundo, indiferença

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