Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Chegou batendo no peito e dizendo que era o menino do poste

Jornal do BrasilMônica Francisco*

Acordei e liguei o rádio para ouvir as novas do dia enquanto agilizava as tarefas para sair e ir ao médico.O hábito do rádio adquirido bem cedo,pois desde que me entendo por gente ouço rádio. Minha mãe sempre tinha o rádio ligado em uma das duas m,ais populares antigamente,quando só tinha AMS. Eu ouvia da hora que acordava, até a hora de dormir,isto porque tinha um programa chamado a turma da Maré Mansa, que era uma espécie de ancestral da escolinha do professor Raymundo.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Bem, depois da devida volta ao túnel do tempo, que por sinal era o nome de uma série que eu também amava,vamos ao que interessa.Ao ouvir as notícias, uma me chamou muita atenção e gerou uma conversa com meu filho, que é jornalista , sobre como a manipulação das notícias, o tom da voz, tudo é muito bem trabalhado para moldar a opinião pública. Até aí nenhuma novidade pra você leitor, mas, falavam do menino que há algumas semanas foi amarrado no poste em uma área nobre da cidade do Rio de Janeiro, e ao informar que ele havia sido detido novamente por tentar furtar turistas em Copacabana, chegou à delegacia, segundo o repórter, batendo no peito e dizendo que era o menino do poste.

À essa afirmação seguiu-se logo uma grande discussão sobre os 11 Senadores da República Brasileira que foram contra a redução da maioridade penal, como se isso fosse o maior problema do Brasil.Fico estarrecida com a capacidade de decisão rápida do povo brasileiro em dizer sim a redução da maioridade penal, sem se dar o direito de discutir de forma aprofundada a tragédia que nos cobrirá , caso isso aconteça.Tudo se decide no calor dos acontecimentos, comoções e depois vão-se os dedos e os anéis.

Não é segredo, embora tenta-se à todo custo refutar e encobrir o racismo incrustado na nossa sociedade brasileira, mas a cada dia , e que bom, ele vem vindo à tona, e quando vier com força total, e eu não vejo a hora de isso acontecer, creio que vamos de fato começar à passar o Brasil à limpo, embora que pra isso muitas outras coisas também precisem ser postas na mesa.Mas , grande parte de nossa mazela cultural, está fincada no racismo.

O racismo institucional, fato comprovado cientificamente, não conversa chorosa de crioulos ressentidos, é fato, é dado comprovado cientificamente, repito, empiricamente tem sido o produtor do maior genocídio de todos os tempos. Pois com recorrência, quem mais morre são so negros e negras.Digo isso, porque dados de múltiplos relatórios, como pro exemplo o relatório anual das desigualdades , produzido pelo professor e pesquisador da UFRJ, Marcelo Paixão, entre outros, mas tomo este como exemplo, nos confronta e alerta.

A sociedade e o Estado brasileiro já matam sistematicamente desde o descobrimento do Brasil, os homens, crianças e mulheres negros e negras.A democracia racial, ainda é higienista, tem asco do que foge da paleta oficial de cores sonhada pra esta pátria mãe gentil.A sanha assassina do Estado impregna e sim consegue arrebanhar mentes e corações,no intuito de ver-se livre desta mancha.

Quanto em mais tenra idade nos livramos destes , mais cedo nos livraremos do problema.Aos que conseguem nascer, saúde escassa.Aos que conseguem crescer, possibilidades mínimas de acessos à educação, saúde e segurança nenhum mesmo, são os que mais são assassinados.Já nascemos meus amigos, marcados pra morrer.Mas de todas as formas, vamos adoecendo, porque racismo adoece e mata.

Se tenta se discutir o assunto, estamos tentando criar ódios que não existem, é duro. Não é assunto fácil não, é assim mesmo.Já não chegam os presídios abarrotados com a negralha, as casas de correção, ou melhor de ressocialização lotadas.Bem , isso é pra depois, pois agora, até pensarmos em melhora a educação, vão ser necessários mais de um século pelo menos, e convenhamos um século demora.Então, na ineficiência construída e urdida pra este fim, vamos diminuindo as possibilidades da negralha, talvez isso freie um pouco a sanha deles em se tornarem cidadãs e cidadãos de direitos.

Segundo o Índice de Desenvolvimento Humano, calculado por um programa da ONU, o Brasil está na 88ª posição entre as nações. Se fossem considerados apenas os  brancos, ascenderíamos para o 66º lugar. Levando em conta exclusivamente os classificados como “pretos” e “pardos”,iríamos para o 103º lugar.No Brasil, as mulheres “pretas” e “pardas” detêm mais de dois terços das ocupações domésticas, mal remuneradas e de escasso prestígio social.

Nem 8% dos jovens “pretos” e “pardos” estão inscritos em estabelecimentos de nível superior, muito aquém da média nacional, que já não é grande coisa.

O economista Marcelo Paixão, é coordenador do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais. O Laeser é vinculado ao Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro..Para o pesquisador, apesar de reconhecermos a existência de fortes disparidades nas condições de vidas de brancos, negros e mestiços de diferentes matizes, não questionamos os padrões racialmente hierárquicos nos quais se assenta a nossa sociedade brasileira”, 

Eis aí nosso desafio, deixar de discutir o sofá na sala e aprofundarmos nossa reflexão sobre este ódio racial que nos envenena de forma tão poderosa, e para o qual ainda não encontramos antídoto. Mal que nos consome e que nos leva `tomar decisões com critérios formados pelo  preconceito e pela noção equivocada de nossa igualdade, que tem gerado verdadeiras aberrações e ações dignas de personagens famosos de nossa história real da humanidade, que tiveram maior impacto porque cometeram seus atos insanos em doses cavalares e de uma só tacada.

Aqui, do jeitinho brasileiro,as doses homeopáticas produzem um efeito devastador, como o da ênfase dada pelo repórter e a construção de uma imagem de orgulho ao ato criminoso do menino, ao inserir o "bateu no peito" `à frase do menino informando ao policial que era o "garoto do poste".Que tragédia, ninguém se sensibilizou com o ser quase humano , o tal "garoto do poste".

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e aluna da Licenciatura em Ciências Sociais pela UERJ. 

Tags: analises, doses, econômicas, Relações, sociais

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