Jornal do Brasil

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

As favelas vivem seu mundo à parte

Jornal do BrasilMônica Francisco*

Resolvi assistir ao filme franco/Argentino/Espanhol, Elefante Branco, estimulada pela indicação de meu filho e com muitas outras feitas por amigos e amigas, que falaram muito bem dele. Darín já era um bom sinal, daí fui pro monitor aguardar a película.

Nos primeiros instantes a lembrança de um outro grande filme, O som ao Redor, devido a agonia dos sons externos e a voz inaudita dos personagens. Muitos sons externos, a balbúrdia, a música, os tiros, o sino da igreja, a preparação da droga, o carrinho de mão que transportava o corpo de um jovem torturado e morto por traficantes pelo personagem de Darín, um padre. Além dos carros e cachorros.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Das crianças pisando esgotos à céu aberto, da vassoura tirando a água podre de dentro dos barracos, das bombas de efeito moral da polícia desapropriando um terreno que os favelados haviam ocupado pelos favelados enganados pela empreiteira, enfim.

Alguns dizem que foi um defeito no áudio, eu preferi me dar o direito de acreditar que a ausência do som nas falas dos personagens foi proposital e nos leva à perceber um mundo circunscrito à si mesmo, falas ditas para dentro. Só eles se ouvem neste mundo à parte,  esquizofrênico.

E assim, as favelas, como as do filme argentino, vivem seu mundo à parte, nas sinfonias das vozes que ninguém ouve "de fora", em uma dor que é só delas. São serviços que não chegam, a dor das mortes prematuras, das mentiras ditas por lábios que teoricamente só deveriam dizer a verdade.

Mas é fato que em meio à isso tudo, a força,o desejo de viver, a necessidade de lutar sempre, é o que faz destes espaços o que há de mais singular e rico no ambiente urbano. Me faz lembrar de um evento que participei há alguns anos que se chamava" Se me deixar falar eu grito", porque é bem assim.

As pessoas se assustam, reprovam quando as pessoas gritam nas favelas, hospitais, transportes, extravasando sua irritação, que pode ser traduzida em usurpação da sua cidadania, é por isso que elas gritam, porque se não gritam ninguém as ouve. O grito para nós favelados é tão vital e tão necessário quanto a própria subsistência. Não o grito barato, sem sentido, não, é o grito simbólico, o grito de fato, o grito da alma. E assim continuamos a caminhada por aqui nas nossas quebradas.

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e aluna da Licenciatura em Ciências Sociais pela UERJ.

Tags: extravasando, irritação, pode, que, ser, sua, traduzida, Transportes

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