Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Setembro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Até que não haja mais fôlego em nós

Jornal do BrasilMônica Francisco*

Há pouco, o país clamava pela saída de Marco Feliciano da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, acusando-o de retrógrado, hermético aos movimentos sociais diversos, principalmente os que tratam das questões de gênero e dos homossexuais. Enfim, todos vocês queridos e queridas leitoras desta humilde coluna já sabem os detalhes do assunto em questão.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Já em nosso estado, contamos com uma possibilidade, nunca antes ofertada, principalmente a nós moradores das favelas e das áreas denominadas territórios de pobreza, a proximidade e o franqueamento ao diálogo e, mais do que isso, o acompanhamento de casos, os mais diversos de violações dos direitos humanos nestas áreas, e sabemos que eles não brotam do chão, são em sua grande maioria, impetrados pelos agentes estatais, seja na segurança, saúde, transporte ou na educação, na oferta de serviços essenciais, ou seja, a cidadania escassa, já recorrentemente escrita por mim e vivida também.

São cenas como as da mulher deitada no chão do hospital público para ser socorrida no Salgado Filho, ou da parturiente dando a luz em cima da pia do Souza Aguiar. Todo esse aviltamento da dignidade humana a que somos submetidos, nós a grande massa dos trabalhadores e trabalhadoras deste país e deste estado. Sem contar as execuções, as escolas deterioradas e/ou que não existem, uma esculhambação.

Ao assumir a comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro(Alerj). O deputado Marcelo Freixo, nos possibilita através de sua equipe e dele próprio, a apropriação do que é nosso por direito.  A Alerj deve ou pelo menos deveria, estar à serviço de nós, o povo. Seus agentes políticos, suas excelências eleitas legitimamente e de forma democrática e pacífica, deveriam todos estar em campo, suas equipes, montadas a partir da disponibilidade de verba pública, deveriam estar nas ruas, ouvindo o povo e trabalhando para fazer valer o direito daqueles que os legitimaram.

Não há um favelado, um miserável, um abusado pela sociedade, parentes de Amarildos, de Josés aos montes, que não corra como famintos por justiça às mãos dos que lhes acenam não com respostas, mas com o mínimo de respeito e cumplicidade, travestido do que mais se anseia neste país que as instituições sirvam ao cidadão e às cidadãs.

Quem vai lutar pela causa do pai que diz amargurado e com o coração sangrando que seu filho de joelhos foi tirado dele por nada. Onde estão os repórteres investigativos, as revistas comprometidas, as emissoras paladinas, os advogados abnegados nesta hora?

Com tanto ódio represado por duzentos anos pelas instituições policiais, ouvir um favelado/a, mães de filhos que morreram violentamente de forma arbitrária por ações desastrosas da polícia, demonstrarem publicamente o respeito e admiração por um delegado da polícia civil é no mínimo pra ser algo que mereceria louvor.

Mas não é isso que percebemos. O que percebemos é que, se algo tenta de alguma forma, arranhar as estruturas do poder paralelo, e não estou falando daqueles grupos armados de moleques famintos que acham que são traficantes e que ficam nos territórios de pobreza se matando não. Estou falando de um poder paralelo, que se adornou das entranhas do Brasil e que se articula como um ser perigoso e extremamente maléfico, com poder de destruição inimaginável.

É quase um Yaoguai, lendário demônio Chinês, que aumenta seu poder consumindo homens santos. Talvez seja isso, a destruição dos íntegros, talvez seja a seiva da vida deste monstro que nos oprime a cada dia, e que reinventa maneiras de aviltar o direito e punir com morte os que lutam por ele.

Foi assim, neste país que manipula palavras e transforma revolução em revolta. Luta legítima em ação de fanáticos religiosos famintos e massacra-os com o consentimento de uma sociedade tão violenta quanto, que mata com o coração, fazendo sua refeição em frente ao jornal da noite, e diz que nunca fez mal a ninguém, o famoso cidadão de bem.

Manifestação pacífica. Eu estava lá, naquela quinta-feira de Junho, em que mais de um milhão de pessoas também estava, e pacificamente com meus filhos e uma centena de outros jovens sentados no chão. Mas não é isso que o Estado quer, o Estado, quer nos sufocar até a morte. Abafar. Conter. Até que ninguém mais grite, até que não haja mais fôlego em nós.

Encerro com a palavras do profeta Amós, atualíssimas por sinal.

"Vocês estão transformando o direito em amargura e atirando a justiça ao chão,(aquele que fez as Plêiades e o Órion, que faz da escuridão alvorada e do dia, noite escura, que chama as águas do mar e as espalha sobre a face da terra, o SENHOR é o seu nome. Ele traz repentina destruição sobre a fortaleza, e a destruição vem sobre a cidade fortificada), vocês odeiam aquele que defende a justiça no tribunal e detestam aquele que conta a verdade. Vocês pisam no pobre e o forçam a dar-lhes o trigo. Por isso, embora vocês tenham construído mansões de pedra, nelas não morarão; embora tenham plantado vinhas verdejantes, não beberão do seu vinho. Pois sei quantas são as suas transgressões e quão grandes são os seus pecados. Vocês oprimem o justo, recebem suborno e impedem que se faça justiça ao pobre nos tribunais. Por isso o prudente se cala em tais situações, pois é tempo de desgraças. (Amós 5:7-13)

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Licencianda em Ciências Sociais pela UERJ.

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