Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

A maquiagem do Governo Cabral nas favelas do Rio

Jornal do BrasilDavison Coutinho*

Quem assistiu os lindos comerciais mostrando as favelas que receberam obras do PAC pode até acreditar que as coisas realmente mudaram e que as favelas nos últimos anos se transformaram em bairros de sonho, lindos, coloridos, e com todos os serviços necessários para uma vida digna.

Podemos comparar até comparar com uma obra de arte feita com lixos, de longe vemos o todo, o belo, no entanto, quando nos aproximamos, chegamos bem perto, conseguimos identificar o lixo existente. Esse é o caso da Rocinha e diversas favelas da cidade do Rio de Janeiro, que receberam além da promessa de uma vida melhor, recursos do Governo Federal para revitalização e melhoria, porém muita coisa ficou no papel, ou melhor, muita coisa ficou no bolso dos que sugam nossa cidade.

A Rocinha, foi primeiramente transformada nas entradas, ou seja, nos locais de visibilidade, logo de primeira recebeu uma formosa passarela assinada, nada mais, nada menos por Oscar Niemeyer. Além da construção de um belo complexo esportivo, e para maquiagem disfarçar ainda mais as “feiuras” da comunidade, o PAC resolveu pintar as casas da entrada do morro com diversas cores. Quem passa em São Conrado, tem a doce ilusão que o lugar está de cara nova.

A Rocinha é imensa e tem cerca de 200 mil moradores, é muito extensa e não se limita às entradas. Nossa comunidade continua com os mesmos problemas de antes. Até os dias de hoje, em pleno 2014, as pessoas ainda moram em casas e barracos em locais de risco, com contato direto com valas e esgotos a céu aberto, o lixo continua sendo um grande problema que não foi resolvido, o transporte vai de mal a pior. As pessoas continuam morando em lugares insalubres e sendo contaminadas com tuberculose e outras doenças, os idosos e deficientes continuam com a mesma dificuldade em andar nos becos e vielas que não são revitalizados. As escolas continuam limitadas, a água falta ainda com mais frequência e o problema com a falta de luz é constante.

Realmente, construir apenas um complexo habitacional com 144 apartamentos, é um número irrisório pela quantidade de gente da favela. Outro fato inaceitável foi o Governo deixar uma creche por último e que ainda não foi entregue aos moradores depois de todos esses anos, afinal educação para que e para quem?

O problema não acontece só na Rocinha, basta dar uma ida ao Complexo do Alemão para se verificar que quase nada mudou e as pessoas continuam vivendo nas mesmas condições desumanas. E isso se repete em várias favelas da nossa cidade. 

Precisamos de uma política séria, não é apenas mudar o nome de favela para bairro, a favela continua com os mesmos problemas que precisam ser tratados com seriedade. Chega de maquiagem, chega de mentira!

*Davison Coutinho, 24 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade, funcionário da PUC-Rio. 

Tags: de, é apenas, mudar, não, política, precisamos, séria, uma

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