Jornal do Brasil

Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Copa do Mundo só pela televisão

Jornal do BrasilWalmyr Jr*

A falta de recursos financeiros será um dos motivos principais para a ausência dos brasileiros nos estádios que serão palco da Copa do Mundo neste ano. A grande paixão esportiva do país, no qual o povo brasileiro faz dela uma religião, está sendo colocada em xeque.  Essa cultura ligada diretamente ao trabalhador e as classes mais populares, que se matam de trabalhar durante a semana e aos domingos vão ver o seu clube do coração no estádio de futebol, cultura essa que não poderá ser reproduzida na Copa do Mundo.

Me pergunto se é um erro dos órgãos competentes ou uma estratégia para que o pobre não tenha acesso aos estádios? Vejo que os grandes aumentos dos preços dos ingressos tem criado um futebol cada vez mais sem povo. O alto custo para assistir um jogo de futebol está selecionando o consumidor desse novo padrão de lazer. Quem mora na Favela não tem recursos para ir ao Maracanã e ver a final da Copa, com isso vamos todos ver os jogos pela televisão.

A desigualdade social extrema pode ser compreendida através de alguns números: quase a metade da riqueza mundial está nas mãos de apenas 1% da população; a riqueza deste 1% é superior a 110 bilhões de dólares, cifra 65 vezes maior que o total da riqueza detida pela metade mais pobre da população mundial; a metade mais pobre da população mundial possui a mesma riqueza que as 85 pessoas mais ricas do mundo; 1 bilhão de pessoas não sabem ler ou escrever o nome.  Esses dados cedidos pela Oxford Committee for Famine Relief (Comitê de Oxford de Combate à Fome- Oxfam)  no Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça) revela ainda que se apenas 10 das pessoas mais ricas do mundo renunciassem às suas posses 1 bilhão de pessoas que passam fome poderiam ser alimentados com esse dinheiro durante os próximos 250 anos.

A má distribuição de renda tira do pobre o direito de participar de uma sociedade democrática de direitos. Para Haroldo Santana, professor de educação física, “realmente eventos como esse trazem grandes benefícios em relação ao desenvolvimento e melhora na infra-estrutura local, mas a administração deve ser transparente e comprometida, talvez os elevados custos nas obras e a necessidade de atrair o público estrangeiro reflitam nos exacerbados preços dos jogos. Vejo hoje que o povo brasileiro está apenas cedendo a copa e não estará participando da copa!”

 A moradora da Maré Jacke Silva acredita que “a Copa é uma oportunidade ótima para nosso país” quando comenta sobre a possibilidade de ver os jogos descreve que irá ver os jogos em casa “tenho medo de ir um estádio quando tem esses jogos e também nem sei quanto custa os ingressos! Mas pelo que falam do valor eu não teria como pagar não”

Já Fernando Junior, morador da favela Marcílio Dias, acredita que a Copa do Mundo no Brasil é uma maravilha “a única coisa que não gostei foi o preço dos ingressos. A copa é boa para nós brasileiros porque nos trás melhorias. Coisa que só acontece em grandes eventos. Infelizmente o acesso ao estádio é muito ruim e muito caro”.

É muito fácil, quando queremos, perceber que a conjuntura social que nos leva à ‘comemorar a Copa do Mundo’, reforça a política de sectarismo e exclusão. Uma lógica que me leva as seguintes questões: O que será dos estádios de futebol sem a irreverência do povo? O que será do povo sem o futebol no estádio? O que será do povo vendo apenas pela televisão sua seleção jogar? Estão querendo tirar das mãos da população seu patrimônio histórico?

Resta-nos assistir televisão ou se contentar com a manipulação dos sorteios de ingressos que as grandes patrocinadoras da Copa do Mundo estão fazendo. Esses mecanismos obrigam a população a consumir de um produto, que está vendendo o valor do futebol e comercializando a fé que o povo brasileiro possui sobre o esporte de maior prática no país.

* Walmyr Júnior Integra a Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro. É membro do Coletivo de Juventude Negra - Enegrecer. Graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ. 

Tags: a conjuntura, e, fácil, muito, perceber, quando, que, queremos

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