Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

As férias escolares sem pipa no ar

Jornal do BrasilMônica Francisco*

Nesta semana homens conversavam ao meu lado e inquiriam um menino, de mais ou menos 10 anos, sobre seu "vício" de computador.O menino, por sua vez, ia e voltava para ver se a Lan House já estava disponível. Já era a terceira volta, e ele reclamava de os computadores estarem desligados, ainda que estivesse aberta.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Os homens diziam que ele perderia a infância.Outro acrescentou à conversa a questão de que não haver pipas no ar, já que estamos ainda em época de férias escolares. Um outro homem era incisivo: "eles inventaram o computador para acabar com a infância".

Diziam que as crianças iriam ter de, em pouco tempo,serem tratadas por psicólogos,pois do jeito que estava,a tendência era piorar.Neste momento tive que sair,pois as pessoas que eu esperava chegaram.O menino finalmente se encaminhava para a Lan House,pois finalmente os computadores haviam sido ligados.

Continuei minha caminhada rumo ao meu destino,pensando na conversa, na infância na favela,nas muitas formas de interrupção do viver a infância nestes espaços.Talvezestar "preso" a um computadorseja para alguns pais – que se esforçam para adquirir um para seus filhos,ou dar uns trocadinhos para que eles utilizem as Lan Houses –, a única forma de mantê-los "protegidos".

Protegidos do estigma,do abuso de autoridade,dos perigos,das más influências e da morte.Até porque,"menor"na favela é sempre suspeito.O mais grave é que a infância está se perdendo não só por conta da tecnologia como pensam os cavalheiros citados.A infância se perde no momento em que um "menor" na favela é obrigado a encostar, com as suas mãos pequenas ainda, em uma parede qualquer para ganhar uma "dura”,porque a "sementinha do mal" devia ser aviãozinho do tráfico ou, só de forma "preventiva", já ir aprendendo qual é o seu lugar.

Realmente não vi muitas pipas nestas férias,e é tão lindo!Outro dia vi um bando de moleques com latas e pedaços de pau,roupa de bate bola,imitando uma folia de reis,do jeito deles é claro.Acho que ainda temos salvação, embora eu morra de medo de folia de reis. Pronto, falei!

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO e à REMOÇÃO!"

*Mônica Francisco é representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Licencianda em Ciências Sociais pela UERJ.

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