Jornal do Brasil

Sábado, 29 de Novembro de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

A questão do lixo é mais do que falta de educação

Jornal do Brasil*Mônica Francisco*

Temos todos nós aqui no Brasil uma cultura estranha em relação aos nossos resíduos descartados, isso é verdade. Estamos tentando mudar nossa atitude em relação a isso e muito há para se fazer ainda e isso globalmente também. Há pouco se vocês leitores se lembram, estávamos recebendo lixo hospitalar importado da Alemanha em 2010, cerca de 22 toneladas. Demonstrando o desrespeito internacional para conosco e demonstrando a falta de educação dos gringos.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Mas o que nos trouxe aqui, foi o descaso por parte da Prefeitura em relação à questão do lixo nas áreas ocupadas peça polícia, em que não há mais desculpas para a precarização do serviço.  A questão do lixo é mais do que uma falta de educação, é uma questão cultural neste país. A relação do brasileiro com seu lixo merece estudos minuciosos sobre. Pois bem, nas favelas, este assunto é um dos mais graves e incômodos, como podemos ver em cada grande temporal – ou nem tão grande – e no dia-a-dia.

Aqui no Borel e em nossas comunidades vizinhas que foram denominadas pertencentes ao Complexo do Borel, a situação é muito complicada. Assim que a favela foi ocupada militarmente, uma ação conjunta, estimulada pela possibilidade de trabalho sem interrupções violentas por conta de tiroteios, foi capitaneada pela Secretaria de Conservação do Município (Seconserva), utilizando o mote da UPP Social, o "Vamos Combinar".

Envolvidos todos, com muita energia na "combinação", moradores(as) e instituições, ansiávamos por realmente diminuir juntos(as) a questão dos acúmulos e pontos críticos em relação ao lixo. Passado o tempo, percebemos que o número de profissionais da limpeza urbana envolvidos com o interior da favela foi se tornando escasso, e hoje é muito pequeno. O serviço só dá conta da rua principal, onde autoridades e visitantes passam.

Nas outras áreas da favela, não há serviço prestado, e o entulho deixado pela Light depois de colocar novos postes e pela Prefeitura, por conta da demolição das casas que ficavam em áreas de risco, continuam lá. O gestor local da Comlurb, me falou que não tem pessoal suficiente para atender a demanda, que inclui a limpeza das valas. Moradores reuniram-se para protestar contra o descaso nesse sentido e foram dispersados por policiais militares com gás pimenta, me relatou a diretora da creche local.

Além de termos de conviver com a falta de água, de saneamento, temos que conviver com entulhos e lixo. Isso me faz pensar, que de modo bem torto olham pra nós, como os gringos olham pro Brasil. A favela é lugar de lixo, porque ali há um grupo de pessoas que não tem problema de conviver com o lixo, pois elas valem tanto quanto.

É como o homem caranguejo de Josué de Castro, que em seu romance nos fala de um homem que por sua convivência espacial com os caranguejos nos mangues, em uma relação quase híbrida, onde ele afirma que a lama dos mangues do Recife é "povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo".

Talvez não se importem tanto em prestar um serviço de qualidade à nossa e às nossas favelas, por nos perceberem no mundo como parte do que deve ser descartado, lixos e homens, homens e lixos, descartáveis e sem importância. Talvez até tenhamos nos acostumado e naturalizado essa convivência, pela a ineficiência do poder pblico e a escassez de cidadania.

Quem sabe não tem razão Marcelo Firpo, pesquisador da FIOCRUZ: “hipercidadania pra uns, e eu completo, gás pimenta pra outros, até por quererem, favelados que são, reclamar por serviços de qualidade”.

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Licencianda em Ciências Sociais pela UERJ.

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