Jornal do Brasil

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Favelólogos de plantão

Jornal do BrasilMônica Francisco*

É um dilema ter a responsabilidade de escrever sobre a favela. Ainda que se more nela. Mais ainda na atual conjuntura, em que estamos nos esforçando para entender, nós moradores, estudiosos, e mais uma – como dizia minha mãe – “ruma” de favelólogos de plantão.

A favela como categoria urbana é um conjunto, ou melhor, um aglomerado subnormal. Como categoria afetiva, é lugar de alternativa, cultura, ainda que alguns estudiosos digam que cultura é a última coisa que se faça ali. Paciência.

Escrevi no último domingo que a cidade está em disputa. Na verdade, a favela também está nesta disputa. Nós favelados precisamos entender que a favela hoje é uma categoria em disputa nas suas várias facetas.

A favela turística, a favela S.A., a favela caótica, a favela midiática, a favela cultural. Seja qual for a categoria posso ter ficado devendo muitas e deixo a vocês, leitores e leitoras, a incumbência de acrescentá-las –. A favela como a conhecemos ou como a conhecíamos não se adequa a essa nova categoria que emerge na esteira da cidade negócio. Estamos no limiar de algo novo, uma nova categoria de favela.

Assim como o Brasil e sua vocação para conviver com novos modelos tendo incrustrado em si os antigos, como um amálgama estranho e de difícil remoção, a favela convive com velhos e clássicos problemas. Mesmo que seja alçada no século XXI a espaço Cult. Notícias de resorts e hotéis extravagantes, para clientes extravagantes que reproduzem barracos para fazer com que seus hóspedes se sintam em uma favela de verdade é sinal de uma espécie de nova patologia social pós-moderna.

Em Maio de 2011, 44 favelas receberam uma nova classificação por parte da Secretaria Municipal de Habitação e do Instituto Pereira Passos e deixaram de ser aglomerados subnormais para se tornarem bairros ou ex-favelas. A nova categorização, para auxiliar o planejamento técnico para estas áreas, não produziu a sensação esperada.

Ao contrário, reacendeu a sensação de escassez com que a favela ainda tem de conviver. Aí se coloca de fato a verdadeira necessidade de disputar a favela como categoria afetiva e identitária, como lugar do alternativo não por opção como alguns endinheirados excêntricos fazem, mas por necessidade extrema negada pelo oficial.

Lugar de afetos, conflitos, alternativa, solidariedade. Como diz a canção, uma convergência do melhor e do pior como qualquer organismo vivo na face da Terra. Não quero ser repetitiva, cansativa, mas assim como a cidade, a favela está em disputa. E disputá-la significa manter a sua essência, a sua história e a sua memória.

Precisamos recuperar a nossa autoestima, a nossa bossa, o nosso tempero. Tudo bem, não temos água, a luz é um problema, o lixo, a ausência de espaços de lazer, a violência oficial e a oficiosa, a opressão legitimada pela sociedade medíocre, hipócrita e pautada por setores da mídia e ainda assim, vamos disputá-la. Se conseguimos até aqui, o que não faremos daqui pra lá, seja lá onde lá for.

"A nossa luta é todo dia e toda hora. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO ao RACISMO e à REMOÇÃO!"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Licencianda em Ciências Sociais pela UERJ.

Tags: a, autoestima, nossa, precisamos, recuperar

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