Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Feliz ano novo. Mas teremos um bom 2014 na Maré?

Jornal do Brasil* Walmyr Jr

Mais um ano se inicia! Então são mais 365 dias, 52 semanas, 12 meses e dois semestres que vamos ter que encarar a segregação social que a prefeitura do Rio de Janeiro impõe na cidade. Com seu programa de promoção da cultura e lazer nesta virada ano de 2013 para 2014, vimos mais um exemplo deste modelo de governo que não inclui as zonas periféricas na sua dinâmica. Ao contrário, oferece ‘pão e circo’ para que o espetáculo de Copacabana não seja contaminado pelo pobre da favela e do subúrbio. 

A política de promoção cultural deste réveillon é uma vergonha para nossa população. Enquanto o espetáculo dos fogos de Copacabana e seu belo show da virada se tornam a vitrine do Rio de Janeiro para o mundo, a prefeitura investe em eventos nas localidades afastadas do Centro para que os turistas possam aproveitar nossa beleza natural. 

A Segregação, segundo dicionário Aurélio, é o ato de separar, isolar contato, de algo ou alguém. A segregação espacial e urbana que vemos no Rio de Janeiro é um péssimo presente de virada de ano. Enquanto, já na manhã do dia 31 as areias de Copacabana ficaram movimentadas de turistas e visitantes para assistir aos fogos de artifício, as classes sociais que ficam concentradas em determinadas regiões mais pobres ficaram com palcos com atrações que inibem o deslocamento deste morador para as areias da praia. 

Essa exclusão social é vista quando vemos os governos priorizarem os investimentos culturais na zona sul, área onde concentra-se a população com maior renda, que tem maior número de hotéis da cidade. Foram cerca de 1,5 mil de policiais e 2 mil guardas municipais  para garantir a segurança e tranqüilidade para os que estiveram nas areias de Copacabana.  

Bem, na Maré tivemos uma programação bem agitada no palco do Piscinão de Ramos. Muita festa e confraternização, embalados pelos batuques do samba e das batidas do funk. Nós que ali vivemos ficamos à mercê deste programa de governo, pois não temos mobilidade urbana que garanta a nossa ida e nosso lazer em Copacabana. 

No tempo dos meus pais, os valores eram outros. As dinâmicas das festas de fim de ano eram para contemplar a cultura do encontro. O saudoso Dicró nos deixou uma música de referência para pensarmos nesta questão: “Domingo de sol / Adivinha pra onde nós vamos / Aluguei um caminhão / Vou levar a família na praia de Ramos.” 

Neste refrão, Dicró ressalta a importância da família se reunir onde outras famílias se reúnem. Dicró afirma que a Praia de Ramos já foi um dia espaço das amizades, das alegrias e referência de cultura e lazer na nossa cidade. Dicró anuncia um domingo diferente dos outros, um domingo onde os frequentadores da praia de Ramos faziam a diferença na organização social daquele espaço. 

É uma pena que não podemos afirmar que um dos maiores investimentos financeiros feitos pela prefeitura não atende a população do Rio de Janeiro. Olhando para esse espetáculo produzido, não sei como será nossa vida na Maré. O ‘show da virada’ em Copacabana não foi criado para o pobre, suburbano e favelado, muito menos para pôr em prática valores necessários para vivermos em sociedade. Este evento foi criado para turistas e visitantes, para o rico e para o capital. 

* Walmyr Júnior é graduado em História pela PUC-RJ e representou a sociedade civil em encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

Tags: coluna, comunidade, JB, maré, pauta, walmyr

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